Te pego lá no Mosh!

São Paulo, 28 de abril de 2012

            Não é possível imaginar um show da banda nova-iorquina Anthrax sem a prática do mosh. O Anthrax é uma das maiores referências do estilo musical e do subgênero Thrash Metal. Foi uma das primeiras bandas de Metal a apresentar o circle pit em um dos de seus vídeos clipes vinculados, na época, pela MTV norte-americana. É também a banda que possui uma canção que referencia a prática do mosh nos shows de Metal.  A importância da banda Anthrax no cenário do Heavy Metal e da prática do mosh é inquestionável. No dia 27 de abril presenciaria a apresentação do Anthrax e da banda de Horror Punk – subgênero do Punk – Misfits.

            Os shows foram realizados na casa de espetáculos HSBC Brasil, na zona sul de São Paulo. O interessante foi presenciar duas bandas de estilos e públicos diferentes e as práticas do mosh. O público presente nos shows era heterogêneo. Havia adolescentes com faixa etária entre 14 e 17 anos de idade, muitos acompanhados dos pais, jovens com idade entre 25 e 35 anos de idade, e adultos com idade entre 40 e 50 anos de idade. Outro ponto interessante foi o encontro entre tribos diferentes no mesmo local convivendo pacificamente. De um lado punks que vieram para apreciar o show dos Misfits; de outro, headbangers que estavam em grande número para saudar o Anthrax. Apesar das diferenças de idades e de “tribos”, havia algo em que estes compartilhavam em comum: o mosh.

            A noite estava tipicamente paulistana, com chuviscos por toda a cidade. Saio de casa com algumas horas de antecedência para que não ocorressem contratempos. Precisava me dirigir até o centro de São Paulo – na Praça da Bandeira – para tomar um ônibus que me levasse para a zona sul da cidade, próximo à casa de eventos. Foi uma viagem longa, que durou aproximadamente uma hora e meia. Ao embarcar no ônibus, que me levaria até as proximidades do HSBC Brasil, pergunto ao cobrador se aquele ônibus me deixaria próximo à casa de espetáculo. O cobrador gentilmente responde que sim e me questionou: _ Você vai ver o show do Lulu Santos? Respondo que não, que iria ver um show de rock pesado. O engraçado foi ver a expressão de susto deste e, em seguida, sua fala: _ Então vai ter um monte de gente de camiseta preta! Sorrio e me dirijo até a poltrona para apreciar a paisagem da noite paulistana com chuva.

             Ao chegar aos arredores da casa vejo a concentração dos “camisetas pretas”. São headbangers e punks bebendo cerveja nos bares próximos a casa, vendedores de camisetas das bandas (os camiseteiros) e os vendedores ambulantes de bebidas. O momento pré-show serve como concentração dos adeptos. É neste momento em que as pessoas se encontram para conversar sobre as expectativas do show, de encontrar e reencontrar amigos e colocar a conversa em dia. Vejo alguns camiseteiros que conheci no show do Soulfly e vou até eles para cumprimentá-los. Bebo um refrigerante, fumo um cigarro e aguardo alguns instantes para adentrar na casa de espetáculos.

            Seria a minha primeira vez que assistiria a um show no HSBC Brasil. O HSBC Brasil é considerado uma das melhores casas de espetáculos de São Paulo. Esta casa possui boa estrutura e espaço amplo com dois pisos. O piso inferior é onde se localiza a pista, com espaço bem amplo, e ao fundo a mesa de som. As cadeiras e a “arquibancada” estão situadas no piso superior. Assim como na casa de espetáculos Via Funchal, no HSBC Brasil é possível apreciar o show de qualquer lugar na pista, tendo uma visão privilegiada do espetáculo.

            Resolvo entrar. Passo pelos procedimentos habituais de segurança e chego à pista. No momento em que entrei na pista, a banda de abertura Torture Squad de Trash Metal estava encerrando sua apresentação. Começa os preparativos para o show do Misfits. Observo os fãs, ansiosos para assistir a banda de Horror Punk que usa e abusa de caveiras e personagens monstruosos nas letras e no cenário do palco. A maioria do público que estava presente para assistir o Misfits era de adolescentes, com idades entre 14 e 19 anos de idades. Muitos estavam acompanhados pelos pais. Caminho até próximo da grade que separa o público e o palco. Neste momento sinto que estava deslocado, pois haviam alguns punks próximos a mim, mas nada que gerasse algum desconforto. Estávamos pacíficos.

            O show do Misfits começa e dá início aos empurra-empurras. As “covas” de mosh pit são abertas e começa a diversão. Uma roda de mosh pit abre-se a alguns metros atrás de mim. Observo por alguns instantes e continuo a apreciar o show. Apesar da prática do mosh ser considerada violenta por não adeptos, observo que no momento da celebração os adeptos encaram o mosh como parte do show, de um sistema como num todo. A regra é simples para os adeptos: quem não estiver de acordo com a prática do mosh, deve assistir ao show de uma região afastada do palco. Logo nas primeiras músicas do show, muitos desistem de apreciar o espetáculo nas regiões próximas ao palco. Começam, então, as práticas de outra categoria do mosh: o crowding surfing.

           O crowding surfing foi uma constante no show do Misfits. Essa categoria do mosh consiste num movimento no qual uma pessoa é passado por cima das cabeças de várias pessoas durante o show, deslocando a pessoa de um lugar para outro. O crowd surfing é realizado por apenas diversão, ou quando alguém na pista precisa de socorro e precisa ser removido para a parte frontal do palco, onde se localiza a equipe de socorristas. Nesta noite o crowding surfing foi realizado por diversão e, também, para prestar auxílio aos adeptos que estavam “passando mal”. É interessante ver que tanto para diversão como para socorrer, o crowding surfing exige dos adeptos próximos ao praticante a ajuda necessária para erguer o corpo que irá surfar pela cabeça dos espectadores. Basta apenas um pedido. Simples assim. Muitos que estavam na parte frontal, não agüentaram a pressão do empurra-empurra e dos corpos passando por cima de suas cabeças e pediram auxílio para sair da pista. Não há outro jeito. É praticamente impossível retornar pelo público para a parte mais afastada da pista. Ou agüenta, ou pede para sair.

          Quando praticado por diversão, o crowding surfing cumpre sua função de oferecer ao praticante a experiência de sentir-se seguro por meio dessa prática simbólica do corpo. O Heavy Metal, no seu todo, possui a capacidade de transmitir por meio da música e, principalmente, das letras das canções, a segurança e a sensação de pertencimento a algo maior que o próprio headbanger. Se o metal é um estilo de música em que os adeptos ouvem por se sentirem seguros, fortes ou que simplesmente ajuda na pressão do cotidiano, o crowd surfing realiza esse papel de forma expressiva no concerto por meio de representações corporais. Enquanto o corpo é passado por cima de várias pessoas durante o movimento, tais pessoas formam a base segura em que se possa confiar assim como no metal.

           O espetáculo de Horror Punk do Misfits termina e começa a “troca” de lugares de tribos dos espaços físicos da pista. Os adolescentes começam a se retirar das partes frontais do palco para dar espaço aos headbangers old school[1]. A maioria das pessoas que estão nas partes frontais da pista são jovens de 25 a 40 anos de idade. Pensei comigo: “agora o bicho vai pegar”. A expectativa para o show do Anthrax estava estampada nos rostos dos espectadores. Como a parte frontal foi liberada pelos fãs do Misfits, estava ainda mais próximo da grade. Antes mesmo do show, o empurra-empurra foi uma constante. Para estar próximo à grade é necessário de o mínimo de resistência física para agüentar os movimentos.

         As luzes se apagam e a histeria do público toma conta do HSBC Brasil. O mar de gente torna-se então, um mar de tormenta. São headbangers que começam a bangear a cabeça, outros tentando abrir uma roda de mosh pit, outros se preocupando em registrar o momento seja por meio de fotografia, seja por câmera; outros apreciando o show como se estivessem vendo uma orquestra, com olhares e ouvidos atentos em direção ao palco.

         Nas duas primeiras músicas, o empurra-empurra era uma constante. Muitas pessoas pediram para serem levantadas para que a equipe de socorristas pudesse retirá-las da parte frontal da pista. Era realmente um pandemônio. Uma das canções que se seguiriam era a famosa Caught in the Mosh. Esta canção é uma referência à prática do mosh.

Why don’t you listen to me when I try to talk to you
Stop thinking of yourself, for just a second fool
Shut up, shut up, I don’t wanna hear your mouth
Your mother made a monster, now get the hell out of my house
 

Can’t stand it for another day
I ain’t gonna live my life this way
Cold sweat, my fists are clenching
Stomp, stomp, stomp, the idiot convention
 

Which one of these words don’t you understand?
Talking to you, is like clapping with one hand
 

What is it? – Caught in a mosh

            Neste momento começaram a abrir diversas rodas de mosh pit. “Pare de pensar em você, por um instante, idiota” frase que talvez sugira as formas de sociabilidades na “cova” do mosh pit. Deixar de lado os problemas do cotidiano para que venha participar da celebração do espetáculo. Sugerindo que o adepto resolva seus problemas na forma de dançar utilizando de seu corpo como vetor de desprendimento de energia. Como havia dito em outro diário de campo: É durante o moshpit que há o momento de catarse no qual o indivíduo se expressa de forma solta e coletiva como forma de interação com os demais adeptos.

            Os movimentos dentro do mosh pit podem causar acidentes, mas nada que não possa ser resolvido com um simples pedido de desculpas. Durante todas as apresentações que participei jamais presenciei um início de tumulto ou de briga generalizada por causa de um movimento mal calculado que ferisse algum participante da dança. Outro ponto interessante é o modo como os participantes se ajudam quando algum headbanger caía ao chão devido a um movimento mal calculado, ou por simples desequilíbrio. Este era prontamente socorrido pelos demais participantes da dança que o ajudavam a se levantar. Os headbangers abrem outra roda em torno do participante caído até que este conseguisse se levantar e seguir com o ritual.  Diversas vezes durante o espetáculo esse procedimento ocorreu.

            O ápice do show ainda estava por vir. Além da musica Caught in a mosh, existe outra que virou um hino para os fãs da banda Anthrax. Hino este que ajudou a propagar, ainda nos anos de 1980, outra prática do mosh: o Circle Pit. O nome da canção é Indians. Esta canção fala sobre as atrocidades cometidas pelo “homem branco” colonizador na questão indígena nos EUA:

 

We all see black and white

When it comes to someone else’s fight

No one ever gets involved

Apathy can never solve

 

FORCED OUT-Brave and Mighty

STOLEN LAND-They can’t fight it

HOLD ON-To pride and tradition

Even though they know how much their lives are really missin’

WE’RE DISSIN THEM…

 

On reservations

A hopeless situation

Respect is something that you earn

Our indian brothers’ getting burned

Original American

Turned into second class citizen

 

Cry for the Indians

Die for the Indians

Cry for the Indians

Cry, Cry, Cry for the Indians

 

Love the land and fellow man

Peace is what we strive to have

Some folks have none of this

Hatred and Prejudice 

WARDANCE!!! 

            Nesta parte da música, em que o vocalista grita a palavra WARDANCE, todos são convidados para participar da “Dança da Guerra” ou o Circle Pit. Todos na “cova” formam uma grande roda e começam a correr no sentido anti-horário, juntamente com a velocidade da música. Essa categoria do mosh é o ápice do emprego de energia por parte dos adeptos, seguido da velocidade da música por meio dos bpm´s (batidas por minutos).

           Esta música sofreu alteração nesta noite. Antes do grito de guerra, o vocalista pediu aos integrantes da banda para que parassem por alguns instantes a música para pedir aos espectadores que formassem a grande roda para a dança de guerra. Desta vez não me contive em apenas em observar. Virei para trás e fui em direção da grande roda para participar do circle pit. Confesso que esta era a primeira vez que participaria da celebração e devo dizer que foi umas das melhores sensações que tive em um show de Heavy Metal. Participar dessa celebração me exigiu muita energia, pois os adeptos correm em círculo com os braços ligeiramente levantados na altura no tórax como forma de proteção. Enquanto corríamos, seguíamos cantando a letra da música. Realmente, é uma dança de guerra. Estávamos resolvendo nossas angústias e medos na roda.

         Depois dessa música, deixei de apreciar o show de forma “passiva” e participei de todos os mosh pits e circle pits até a última música. Ao final do show estava todo suado como se eu tivesse praticado algum esporte. A sensação de estar com as energias esgotadas foi prazerosa. Os momentos pós-show de interação com outros adeptos, e as conversas sobre as músicas e as rodas de mosh foram incríveis. Definitivamente: “É durante o mosh pit que há o momento de catarse no qual o indivíduo se expressa de forma solta e coletiva como forma de interação com os demais adeptos.”

G.Stoner


[1] Old School ou a velha escola refere-se a algo que é de épocas passadas. O termo implica, no meio metálico, uma grande consideração ou respeito às bandas e aos fãs de outras gerações. Geralmente descreve uma safra de pelo menos uma geração (20 anos ou mais), mas poderia ser bem mais velho, dependendo do contexto de uso.

De alma leve

São Paulo, 29 de fevereiro de 2012

            No dia de 25 de fevereiro de 2012 tive o privilégio de assistir o show de uma das maiores bandas brasileiras de Thrash Metal, depois de um intervalo de 14 anos em que esta não se apresentava em solo brasileiro. A banda chama-se Soulfly e o fundador desta é Max Cavalera, ex-integrante da banda de Thrash Metal brasileiro de maior renome no cenário mundial – Sepultura. O Soulfly não se apresentava no Brasil há 14 anos, e por isso esse show foi marcante para os fãs da banda. Talvez por isso, o show ficou marcado pela intensidade da agitação do público. Foram muitos moshpits, circlepits, alguns crowding surfing e até mesmo stage dives. Minha empolgação ao assistir ao show como headbanger e também como pesquisador, foram essenciais para a observação dos rituais e a interpretação dos fatos que ocorreram nessa noite.

            O sábado do show seria um dia incrível, sem dúvida. Ao acordar, no sábado de manhã do dia 25 de fevereiro, decido que iria ao show do Soulfly. Como não tinha conversado com nenhum dos meus amigos, e também não tinha recebido nenhum convite para ver o espetáculo, tomo a decisão de ir sozinho ao show. Preparei-me para o show e acessei o site – www.ativaai.com.br – para saber se ainda teria ingressos para o show. Para minha sorte, a loja de discos Baratos Afins (uma das mais importantes da Galeria do Rock) havia disponibilizado alguns ingressos para venda.  Preparo minha vestimenta com minha bermuda camuflada e a camiseta preta da banda Lazarus A.D. para, em seguida, ir à Galeria do Rock para comprar meu ingresso.

            Um fato interessante que percebi foi a maneira como esse show havia sido organizado. Como especificado no parágrafo acima, esse show foi promovido pelo site ativaai.com. Este site promove eventos culturais por meio do financiamento coletivo. Conforme o site:

“O Ativa Ai é um site crowdfunding  - financiamento coletivo – que veio para facilitar a realização de shows, peças de teatro, eventos e produções, de acordo com o desejo e colaboração dos participantes do site oferecendo diferenciais exclusivos!
Para ativação de determinado evento, dividimos os custos (artista, estabelecimento etc) por uma quantidade minima de cotas que são oferecidas aos participantes Ativa Ai com vantagens exclusivas.”

          Como a venda dos bilhetes havia completado o número mínimo de “ativadores” o show aconteceria naquela noite.

          Desloquei-me a caminho da Galeria do Rock localizado no centro de São Paulo. Ao chegar vejo a movimentação dos freqüentadores. A Galeria do Rock é o local onde se concentram boa parte das tribos urbanas de São Paulo. É possível encontrar headbangers, punks, skatistas, rappers, emos e etc. A Galeria é um centro comercial onde se localizam diversas lojas especializadas em artigos dessas tribos urbanas. São lojas de skate, acessórios e roupas para adeptos do skate no piso térreo. Lojas de CDs de rap e cultura afro, no subsolo da Galeria. No primeiro e segundo andar se localizam as lojas de CDs de Rock, Metal e seus subgêneros, lojas de tatuagem, roupas e acessórios, fã clubes e demais estabelecimentos que tenham alguma ligação com o universo do Metal e do Rock. Aos sábados há um fluxo constante entre adeptos dessas tribos: headbangers com suas camisetas pretas de suas bandas preferidas, punks com visual agressivo e seus cortes de cabelo moicanos, skatistas com bermudas e camisetas “largas” carregando seus skates debaixo dos braços, e os rappers com visual semelhante aos dos skatistas com roupas largas e muitos com camisetas de bandas de rap. O interessante é notar os espaços ocupados por essas tribos. O piso térreo seria o lugar de livre circulação a todas as tribos, pois este é onde se localizam os acessos as ruas 24 de Maio e São João, aos andares superiores e o subsolo. No primeiro e segundo andar há o fluxo maior de rockers e headbangers, no subsolo os rappers. É difícil encontrar, por exemplo, alguém que esteja “fora” de seu espaço.

            Depois dessa observação “etnográfica” do lugar, dirijo-me à loja Baratos Afins para adquirir meu ingresso. Feita a transação vou até um bar-restaurante da Rua 24 de Maio para almoçar e carregar minhas energias para o show.

             O plano seguinte é retornar para a Zona Norte de São Paulo e tomar o ônibus frente à Estação Tietê do Metrô para seguir viagem até a Zona Oeste, nos arredores do bairro da Barra Funda, no local do espetáculo. Chego ao local cerca de duas horas antes do show e vejo a concentração de headbangers frente ao espaço no qual será realizado o espetáculo. O show estava marcado para as 20h00min. O espaço chama-se Via Marquês, um estabelecimento para eventos multiusos com pista, palco, bares, banheiros, aérea VIP, e toda estrutura necessária para a realização de shows, festas e etc. Mais a frente discorrerei a respeito do espaço físico do Via Marquês.

            Ao chegar ao local vejo a movimentação de headbangers frente ao Via Marquês. Cerca de 30 pessoas faziam fila do lado de fora para aguardar a abertura dos portões que dão acesso ao interior do estabelecimento. Na rua, ao meio-fio, estavam estacionados veículos utilitários – vans – que vendiam bebidas. Sigo em direção a um desses veículos e compro uma garrafa de água. Enquanto aguardava comecei a fazer amizades com vendedores ambulantes de camisetas da banda Soulfly que percorriam a calçada oferecendo seus produtos. Os vendedores ambulantes eram todos adeptos do estilo de música e de vida – o heavy metal. Conheci alguns que estavam vendendo suas camisetas para comprar ingressos e também apreciar o show. Muitos desses vendedores são velhos conhecidos do público, pois na grande maioria dos shows realizados em São Paulo, eles estão sempre em frente dos estabelecimentos onde serão realizados os shows oferecendo seus produtos. Durante o bate-papo que tenho com os vendedores, vejo a movimentação de membros das bandas e do pessoal técnico nos arredores do Via Marquês. Em uma dessas ocasiões avistamos os integrantes da banda paulista de Thrash Metal – Korzus. Saudamos os integrantes que nos responderam simpaticamente o gesto proferido por nós – o Meloik. Nesse momento fico sabendo sobre as bandas que iriam abrir a noite: Skin Culture, Korzus, e para finalizar a noite o Soulfly. Nesse vai e vem de gente avistamos outra pessoa conhecida no Metal nacional: o Toninho. Toninho é o fundador do fã clube do Sepultura no Brasil. Logo quando chegou, Toninho nos cumprimentou e seguiu para a fila das pessoas VIPs, ou seja, dos convidados das bandas.

            Depois de aproximadamente uma hora e meia de espera, finalmente os portões são abertos às 19h30min. Entro na fila e, em seguida, passo pelos procedimentos habituais dos shows como a apresentação do ingresso e a revista pelo pessoal da segurança. Finalmente chego à pista e observo o local. O Via Marquês possui estrutura simples, porém aconchegante. O ambiente possui uma pista razoavelmente grande, área VIP, banheiros e bares de fácil acesso. O palco se localiza no lado esquerdo para quem entra na pista, do lado direito ficam as mesas de som, acima fica a área VIP, e ao fundo da pista se localiza os banheiros. O ambiente possui capacidade para 700 ou 800 aproximadamente. O ponto ruim que notei na pista é a existência de duas colunas metálicas no centro da pista que sustenta toda a parafernália de equipamentos de luz e o restante da estrutura do palco. Sinceramente, não acho uma boa idéia ter esse tipo de coluna no meio da pista para shows de Heavy Metal. Principalmente quando há shows de Thrash ou de Extreme Metal em que o mosh é uma constante.

            Vou em direção ao bar e peço uma garrafa de água. A temperatura do local está alta. Os primeiros headbangers se apossam dos espaços junto à grade que separa o palco e a platéia. Muitos querem estar o mais próximo possível de seus ídolos. Permaneço no meio da pista onde há uma visão privilegiada no qual tive a oportunidade de observar tanto o show como o público. Eram 20h00min, as luzes se apagam, a primeira banda da noite entra no palco e saúda o público. A banda chama-se Skin Culture e eles são da cidade de Mogi das Cruzes. O Skin Culture é uma banda que mistura elementos de vários subgêneros do metal moderno. É uma mistura de elementos do Hard Core, do Nu Metal e do New Wave of American Metal. A estética das músicas compõe a mistura entre vocal gutural do vocalista e o vocal normal do guitarrista, de melodias pesadas, porém não tão agressivas e rápidas como no Thrash, e de elementos do Groove Metal.

            Particularmente, o som do Skin Culture e o estilo desse “novo metal” não me agrada muito. Ainda prefiro a linha do “Old School” no qual o “feeling” e o “punch” são elementos predominantes nas músicas.

            Na pista, durante a apresentação do Skin Culture, haviam por volta de 150 pessoas. Muitos headbangers estavam do lado de fora aguardando para entrar no estabelecimento. O show estava tranqüilo e não observei em momento nenhum alguma “agitação” por parte do público. Neste show não houve nenhuma manifestação, por parte do público, por meio do mosh. Parece-me que os adeptos estavam reservando suas energias para as bandas seguintes. Depois de 40 minutos de espetáculo, o Skin Culture encerra sua apresentação e começa os preparativos para o próximo show.

            O próximo show seria dos paulistanos do Korzus. A lendária banda começou sua carreira no início dos anos 80. A banda é conhecida pela contribuição ao Thrash Metal nacional por seus álbuns lançados e pelos diversos shows realizados no Brasil e no exterior. Esperava ansiosamente pelo show do Korzus porque sabia que seria um espetáculo no qual o público agitaria sem parar. E foi o que se sucedeu durante os 50 minutos de apresentação.

            O Korzus entra no palco por volta das 21h20min com a música Guilty Silence. O pandemônio do público se reflete logo nos primeiros acordes. Era somente o início daquilo que ocorreria no restante da noite: muito empurra-empurra, moshpits, crowding surfing e até circle pits.

You get mad
He´s a terrible waste
Hate is buried
in your chest
The screams are face to face

Guilty(guilty)
Silence(silence)
Terror(terror)
And bloooood

           O moshpit foi espetacular. A agitação do público foi do início ao fim do espetáculo. Como já explanei sobre o moshpit em outros diários de campo, apenas explanarei sobre o movimento e as direções em que os headbangers propagam durante o ritual. No moshpit não há um sentido único das expressões corporais. Todos os participantes se dirigem em direções diversas na “cova” da dança.

           O movimento mais interessante que observei nesse show foi o crowding surfing. Apesar de ser importante no mosh, o crowding surfing é pouco celebrado nos shows de heavy metal em São Paulo. Nessa noite vi apenas a atuação de duas ou três pessoas praticando o crowding surfing. Recorrerei a outro diário de campo que produzi em Portugal durante a apresentação de bandas de Thrash Metal na casa de espetáculos – MetalPoint:

“Outro movimento interessante que observei durante o concerto, e que jamais pensei que fosse ocorrer devido ao tamanho do lugar, foi o crowd surving. Essa categoria do mosh consiste num movimento no qual uma pessoa é passado por cima das cabeças de várias pessoas durante o concerto, deslocando a pessoa de um lugar para outro. O crowd surfing é realizado por apenas diversão, ou quando alguém na pista precisa de socorro e precisa ser removido para a parte frontal do palco, onde se localiza a equipa de socorristas. Nessa noite o movimento foi realizado apenas por diversão. Durante os três espetáculos, o crowd surfing foi uma constante no Metalpoint.”

            Se o metal é um estilo de musica em que os adeptos ouvem por se sentirem seguros, fortes ou que simplesmente ajuda na pressão do cotidiano, o crowd surfing realiza esse papel de forma expressiva, nos shows, por meio das representações corporais. Enquanto o corpo é passado por cima de varias pessoas durante o movimento, tais pessoas formam a base segura em que se possa confiar assim como no metal. O público, no show, é a representação dessa base segura que o metal propaga em suas letras, na estética das músicas e na atitude perante o cotidiano.

You stick your finger in my face
And tell me what I must do
Why don´t you respect me?
Your truth is not mine

I´m tired of always hearing
Time is passing
and you never learn
I´m looking in your eyes
and won´t see your soul burn

Respect
Respect my time
Respect my life
Respect your mind
Respect

            O momento mais surpreendente foi durante a apresentação da última música da apresentação do Korzus. O vocalista da banda, Marcello Pompeu, incitou o público a realizar um grande circle pit na pista. O circle pit é outra categoria de mosh. Parecido com o mosh pit, mas com a diferença que todos na “cova” formam uma grande roda e começam a correr no sentido anti-horário, juntamente com a velocidade da música. Essa categoria do mosh é o ápice do emprego de energia por parte dos adeptos, seguido da velocidade da música por meio dos bpm´s (batidas por minutos).

            Apesar da grande apresentação do Korzus, o melhor ainda estava por vir. O show mais esperado da noite – Soulfly – tornaria o espaço físico do Via Marquês pequeno para as expressões corporais que se sucederam naquela noite. Foi impressionante o tamanho da energia desprendida pelos adeptos durante a apresentação do Soulfly. Durante toda a apresentação da banda, moshpits e circle pits foram uma constante num movimento insano e sem fim. Em algumas músicas era possível ver a extensão do moshpit que cobria quase toda a pista. Na segunda parte da apresentação do Soulfly, Max Cavalera convida seu filho, Igor, e seu enteado, Richie para cantar uma música junto com ele. No final da música os dois rapazes se jogam no público. Esse é o movimento do stage dive, que faz parte também do mosh. A explanação sobre o stage dive ficará para uma próxima análise, no qual terei mais exemplos e mais fontes para refletir sobre o movimento.

            Ao final do show estava totalmente exausto. Vários fatores contribuíram para esse cansaço. A temperatura alta dentro do estabelecimento, os constantes moshs, o empurra-empurra dos adeptos, a quantidade de pessoas e etc. Com certeza foi uma noite em que saí de alma leve do show. Para mim o metal cumpriu com sua função: o de celebrar o dia e a festa, e de aliviar as tensões do cotidiano. Quero agradecer a fotógrafa do programa Heavy Nation da Rádio UOL, Irisbel Mello, que gentilmente cedeu as fotos presentes nesse diário de campo. Quero agradecer também aos amigos que conheci nessa noite: os vendedores de camisetas e as meninas da banda Nervosa. Isso é Heavy Metal, isso é o underground.

 G.Stoner

 Fotos de Irisbel Mello

www.fotografiadeshow.blogspot.com

Das trevas à luz

São Paulo, 14 de janeiro de 2012

No dia 14 de janeiro recebi o convite de um colega de faculdade para assistir o show de uma banda de White Metal. O lugar do espetáculo foi em uma igreja evangélica denominada de Crash Church Underground Ministry. Esta igreja procura unir música metal, em grande parte de seus subgêneros, com evangelização de jovens. Este trabalho causou grande impacto no modo como analisei a cultura heavy metal e, particularmente, o estudo do mosh. Não me reterei na análise das particularidades dessa igreja: primeiro, porque o foco dessa análise foi o show da banda Antidemon e as expressões corporais dos espectadores; segundo, porque a igreja Crash Church Underground Ministry já foi objeto de estudo da pesquisadora Flávia Slompo Pinto em Antropologia Social pela IFCH/Unicamp.

No final da tarde de um sábado chuvoso, recebo o convite de meu colega Bruno para assistirmos o show da banda Antidemon, banda de grande nome no underground brasileiro que já realizou diversas turnês na Europa e na América Latina. Este show seria a comemoração dos 18 anos da banda. A banda poderia ser classificada, para melhor entendimento, como White Metal, ou a vertente cristã do metal. Ao analisarmos a estética das músicas do Antidemon veremos que a proposta da banda se aproxima do Death Metal e Grind Core, subgêneros do metal em que a velocidade acelerada dos instrumentos juntamente com o vocal gutural são elementos constantes e presentes nas canções. Uma das características do Death Metal diz respeito às letras das bandas do estilo que possuem temas mórbidos relacionados com a morte, violência, filmes de terror, filosofia, batalhas épicas e outros. Nas letras das canções da banda Antidemon vemos essa proposta mas, com o diferencial que é marcante: letras que possuem algum tema relacionado com passagens bíblicas.

(…) mas com isso eu me entendi
mas com isso eu compreendi
que alguém um dia morreu
em holocausto a minha vida
essa vida de terror
transformou-se em amor
Jesus Cristo salvador
de minha vida é senhor.[1]

 O espetáculo foi realizado na sede da igreja Crash Church Underground Ministry localizado na zona sul de São Paulo no bairro do Ipiranga. Meu colega Bruno me telefona e marcamos para nos encontrar na Estação Sé do Metrô. Da Sé iríamos até a Estação Alto do Ipiranga e caminharíamos cerca de 500 metros até a igreja. Ao chegar vejo a aglomeração de alguns metalheads e adeptos de outras tribos urbanas, como góticos, emos e straight edges. A fachada da igreja lembra um bar de rock, com dois portões de aço e uma porta central que leva até o interior do estabelecimento. O Bruno é um velho conhecido dos freqüentadores da igreja. Chegamos e fui logo apresentado por Bruno para alguns metalheads e para o vocalista e baixista da banda Antidemon – o Pastor Batista. Sou muito bem recepcionado e convidado pelo Pastor Batista a freqüentar a casa outras vezes. O Pr. Batista explica como é o funcionamento da casa, dizendo que aos sábados sempre há apresentações de bandas de Heavy Metal e Extreme Metal Cristão. Aos domingos há os cultos no final da tarde e dependendo do dia, apresentações de bandas. O Pr. Batista me pede licença e segue em direção ao palco para os preparativos da apresentação.

Resolvemos entrar para ver o show, e tomo minhas primeiras impressões do lugar.  Parece-me que o lugar era uma antiga garagem de automóvel que foi readaptado para as manifestações culturais e religiosas. Nessa antiga “garagem”, agora lugar sagrado, as paredes estão pintadas de preto com desenhos tribais. O teto é coberto por forro acústico e por alguns spots de iluminação que estavam direcionados para o palco. Pouco atrás da pista fica a mesa de som – quase no fundo dessa “garagem”. Havia cerca de sessenta ou setenta pessoas para prestigiar o show do Antidemon. Quando entramos e chegamos à pista, o mestre de cerimônias estava divulgando a agenda do mês, no qual outras bandas se apresentariam durante o mês de janeiro. A banda é apresentada e começa o show, ou o “culto”.

Como de praxe, todo o início de apresentação de alguma banda de metal é sempre um pandemônio. São headbangers que começam a bangear a cabeça, outros tentando abrir uma roda de mosh, outros se preocupando em registrar o momento seja por meio de fotografia, seja por câmera; outros apreciando o show como se estivessem vendo uma orquestra, com olhares e ouvidos atentos em direção ao palco. Logo em seguida os adeptos abrem a roda de mosh, ou melhor, o moshpit. Nesse momento estava no fundo da pista e não pude observar com precisão os movimentos da dança. Preparo minha máquina fotográfica e resolvo adentrar pelo público até a parte esquerda da pista. Fico encostado na parede e observo com precisão todo o ambiente do show: o palco, a pista, o mosh e o restante das pessoas que estão apreciando o momento.

Encontro-me ao lado da roda de mosh. Pego minha câmera e começo a registrar alguns momentos da dança. O som da banda agrada-me desde o primeiro acorde – Death Core brutal com melodias pesadas (distorcidas) e rápidas. O movimento da dança segue a velocidade do som. Quanto mais rápido o som, maior será a energia despendida pelos adeptos da dança. Nessa tarde observei apenas dois movimentos da dança: o moshpit e o headbanging.

Para explanar sobre o moshpit recorrerei a anotações de outro diário de campo que elaborei. A análise do moshpit foi durante a apresentação de uma banda de Thrash Metal na casa de espetáculos – Metalpoint em Portugal:

 “O moshpit ou a roda de mosh, ou ainda a roda de pogo é o mais comum de se verificar em um show de metal, punk ou rock em geral. Os adeptos “abrem” uma roda no meio do público espectador e começam a se chocar uns aos outros, em um movimento que combina chutes ao ar e “ombradas”, mas nada que possa causar algum ferimento a si mesmo e aos outros. Os braços ficam ligeiramente levantados na altura no tórax para proteção dos membros superiores como o tórax e a cabeça. É durante o moshpit que há o momento de catarse no qual o indivíduo se expressa de forma solta e coletiva como forma de interação com os demais adeptos. Apesar de ser considerado como violento, o movimento adquire outro significado para os adeptos. Toda vez que algum metaleiro caía ao chão devido a um movimento mal calculado, ou por simples desequilíbrio, esse era prontamente socorrido pelos demais participantes da dança que o ajudavam a se levantar. Fiquei no limite entre o publico e a roda de mosh, e eu mesmo ajudei um metaleiro a se levantar quando este caiu na minha frente num certo momento de show”.

 Já o headbanging, ou “bate-cabeça” na expressão popular, é o movimento que os adeptos fazem com a cabeça de cima para baixo, seguindo a velocidade da música que está tocando. Geralmente, apenas a cabeça se movimenta como se fosse um metrônomo natural[2] que acompanha as batidas da música. Ao observar os adeptos a fazerem o headbanging noto que este é um movimento constante. É uma afirmação dos adeptos perante a qualidade do espetáculo. Se o show está agradável aos ouvidos dos espectadores, então o headbanging é a comprovação por parte do público. O movimento é espontâneo, e eu mesmo cheguei a me perceber, durante boa parte do show, que estava no mesmo ritmo que os outros espectadores.

Como lembrete para uma análise mais aprofundada, que será feita futuramente, proponho o método de Rudolf Laban para tal emprego. Para Laban as indicações do movimento para análise são, essencialmente, espaço, tempo e energia.

 “Os movimentos (…) do homem encontram-se caracterizados por qualidades humanas; por intermédio deles, o homem se expressa e comunica algo de seu ser interior. Tem ele a faculdade de tomar consciência dos padrões que seus impulsos criam e de aprender a desenvolvê-los, remodelá-los e usá-los (LABAN, 1978, p.112)”.

 Outro ponto interessante e importante para a análise do mosh é o movimento em que adeptos realizam durante a música. Pretendo associar a velocidade e a intensidade da música com o emprego do tempo e de energia dos corpos na interação com os adeptos. Este insight veio à tona quando observei o movimento numa determinada música da banda Antidemon – Holocausto. Durante a apresentação dessa música (vídeo disponível no site YouTube e filmado por mim) o emprego da energia despendida pelos adeptos é acompanhado pelos bpm’s (batidas por minutos) da canção. Quanto mais rápida e intensa a música, maior é a energia empregada pelos adeptos. Há o momento no início da canção em que predomina o headbanging, o refrão no qual a velocidade da canção aumenta e o mosh começa a se formar, e o meio da canção no qual o bpm é ainda maior e o mosh fica mais intenso. A expressão corporal é a resposta, por meio do mosh, perante a intensidade da música propagada no palco.

A temperatura dentro do ambiente estava alta. Num certo momento do show, eu e meu colega Bruno resolvemos sair para beber algo no bar ao lado. Nessa hora teria outro impacto causado pelo lugar no qual estava. O bar é uma mistura de lancheteria e bazar. Na parte da lancheteria vendiam-se sucos, lanches naturais, refrigerantes e outras guloseimas. No bazar vendiam-se cd’s de bandas independentes e camisetas. O que me deixou mais a vontade foi o fato de não venderem bebida alcoólica no bar. Ficamos conversando até o término do show, nos despedimos dos amigos que tínhamos feito na igreja e fomos embora.

Com certeza essa foi uma tarde interessante. O fato de poder registrar com fotos e vídeos os momentos do show foi importantíssimo para as análises do pós-show. O encontro com a cultura do subgênero do White Metal e seus símbolos despertou-me ainda mais minha curiosidade pelo universo do metal. Observei o quanto que a cultura do metal é grande, observei a complexidade dessa cultura com suas ramificações e as variações de seus símbolos. Foi uma tarde interessante em que saí das trevas em direção à luz.

 

Bibliografia:

 LABAN, Rudolf. Domínio do movimento. São Paulo: Summus, 1978.

 PINTO, F. S. RADICALMENTE SANTOS: o rock’n’roll e o underground na produção da pertença religiosa entre jovens. IFCH/Unicamp. Disponível em <http://www.crashchurch.com/materias/FlaviaSlompoPinto-2007.pdf> Acesso em: 15 jan. 2012.


[1]  Trecho da música Holocausto da banda paulista de Death-Core Metal Antidemon.

[2] O metrônomo é um relógio que mede o tempo (andamento) musical. Produzindo pulsos de duração regular, ele pode ser utilizado para fins de estudo ou interpretação musical. O metrônomo mecânico consiste num pêndulo oscilante cujas oscilações, reguladas pela distância de um peso na haste do pêndulo, podem ser mais lentas ou mais rápidas, sendo que a cada oscilação corresponde um tempo do compasso.

Ano novo – ano velho

Véspera de ano novo. Ou será de ano velho? Não importa. A euforia coletiva toma conta de nós três: Eu, o João e o Pép’s. O que iríamos fazer na noite da virada? Usar e abusar de substâncias químicas, claro! Seria uma viagem de estar e ao mesmo tempo não – estar na nossa terrível realidade. A realidade virtual seria o ponto no qual viveríamos por tão pouco tempo, realidade virtual sem internet, sem tv’s, sem nada. A nossa realidade virtual é acessada pela rede mundial do diabo. Cinco minutos de navegação custam horrores, e a vontade de continuar plugado (leia-se noiado) é maior, mas muito maior, com aquilo que podemos comprar.

João é o primeiro que vai ao meu encontro. Ele chega à minha casa, estaciona sua moto, e grita pelo meu nome em frente ao portão: _ Ei! Willian! Abro a porta e digo para esperar alguns minutos, pois estava terminando de me arrumar. Era quase uma donzela, toda preparada. Com roupa nova, branca e todo perfumando. Tanta arrumação para uma noite de perdição. Era mais que contraditório! Realmente, talvez contraditório, mas mesmo na perdição do inferno de Dante, era necessário estar muito bem apresentável para saudar a entrada do ano novo. Ao sair cumprimento meu amigo: _E então senhor João qual é a boa dessa noite? Com um sorriso perverso João me responde: _ É senhor Willian Rocha, temos que bolar um plano, pois teremos o meu apartamento vazio. Minha mãe foi para a casa dos parentes no interior e só volta no dia 03! Percebi na hora qual era sua intenção. Seria a virada mais alucinante que teríamos, e nós dois já estávamos imaginando como seria aquela noite.

Meu pensamento era mais rápido que qualquer computador, era insuperável. Lembrei-me que Pép’s estava também sozinho em casa. Subo imediatamente na garupa da moto de João e digo para irmos até a casa de Pép’s. Chegamos e fomos recepcionados pelo mesmo sorriso perverso de Pép,s. Era o mesmo sorriso que João tinha lançado quando me prontifiquei a cumprimentá-lo. Nós três sabíamos o que estávamos pensando. Era uma telepatia mórbida que, sem lançar uma palavra, nos movia em nossas ações. Agora tínhamos que planejar algo, pois o circo estava armado. Digo ao Pép’s para nos aguardar enquanto João me leva até o apartamento para em seguida buscá-lo. João me deixa esperando e foi buscá-lo. Nesse tempo fiquei admirando a vista da cidade do 13º andar do apartamento. Fiquei imaginando como seria estupendo ver a queima de fogos de um lugar tão privilegiado como este. Não posso negar como imaginei também como seria a sensação de ver toda essa queima de fogos alterado.

Quando finalmente os dois chegaram, o clima de entusiasmo tomava conta dos três. Entusiasmo e certa alegria, pois tínhamos dinheiro, tempo e lugar para usar tudo que quiséssemos. Apenas Pép’s tinha conhecimento de onde teríamos que ir. Queríamos o melhor, da quantidade suficiente para não fazer outras viagens até a favela do Popeye. Juntamos o dinheiro e decidimos que eu e Pép’s iríamos com a moto do João até a favela. Se fossemos uma empresa de logística, seriamos uma das melhores do ramo. Penso que nem o diabo pensava tão meticulosamente como nós. Acordo fechado. Peguei a chave da moto e fomos da maneira mais rápida até o nosso destino. Enquanto íamos até a favela, João cuidava de todos os apetrechos necessários para nossa festinha. Sedas, fósforos, cachimbo e, claro, o maravilhoso uísque de 12 anos que estava à nossa espera no bar da sala.

Era uma noite de chuva fina. O asfalto estava escorregadio e o trânsito estava carregado de carros cheios de euforia e descontração. Sim, os carros! Pois não víamos as pessoas, apenas os carros com seus faróis e buzinas passando pelas ruas. As ruas próximas da favela estavam abarrotadas de pessoas que passeavam num vai e vêm constante. Parecia um grande shopping center de euforia, ansiedade e tristeza. A cada esquina tinha um traficante que gritava o nome do seu produto e o preço. É muito bom comprar droga nessa época do ano, pois é possível encontrar até promoções. Compre 10 papéis de cocaína e leve uma grátis! Ao chegar à favela avistamos o tal do traficante: o temido Veva. Paramos a moto e sem desmontar fizemos nosso pedido no Drivethru do Mc ’Inferno. Ao ouvir nosso pedido Veva dá um largo sorriso e dispara:_Hum hoje a festa será boa eim! Não era por menos, nosso pedido incluía 05 papéis de cocaína, 05 de crack e três paranga de maconha. Em menos de 02 segundos Veva retira o sorriso do rosto e pede para darmos uma volta no quarteirão para dar tempo de buscar a droga. Imediatamente fomos dar essa volta no quarteirão, uma volta que parecia que estávamos dando a volta ao mundo. Esse era o tempo mais demorado para nós, parecia uma eternidade. Era também o tempo mais perigoso, pois tínhamos que olhar para todos os lados para ver se tinha ou não alguma viatura policial. Tal movimento não poderia ser muito brusco, tinha que mover apenas os olhos e mexer levemente a cabeça para o lado ou para outro. Não podíamos levantar suspeitas nem para a polícia, nem para os traficantes. Retornamos e pegamos nossa droga. Tínhamos que voltar da maneira mais ligeira possível, mas sem levantar suspeitas. Na volta pegamos os atalhos que nos levaria de volta ao apartamento de João.

Quando adentramos no apartamento, a bandeja de prata e três copos de uísque estavam prontos na mesa. Peguei um papel de cocaína e despejei na bandeja. João me olha com ansiedade e dispara: _Faça três tiros servidos eim Willian! Pego o cartão telefônico e preparo os tais dos três tiros servidos, e em seguida levanto a bandeja até a altura da cabeça de João para que este possa cheirar de maneira cômoda. João cheira sua carreira e então viro a bandeja para o Pép’s que alegremente suga toda sua carreira. Peço para João segurar a bandeja para mim e repito o movimento que eles tinham feito: o de cheirar toda aquela carreira. Logo em seguida tenho uma sensação de alívio e prazer. O amargo desce pela garganta e aproveito para beber uma dose de uísque 12 anos com 02 pedras de gelo. É a combinação perfeita: uísque e cocaína, ambos amargos. Amargura que acabaria com a doçura da vida. Cada um acende um cigarro, sentamos no sofá e ligamos a TV. Estávamos olhando o noticiário que mostrava as festas de final de ano nas principais cidades do mundo. O nosso 220V é acionado e começamos a falar como seria nossa passagem de ano em algum desses países que fora apresentado pelo jornalista. Falávamos mais que a boca e estávamos numa alegria artificial resultado do efeito da droga. A cada meia hora preparávamos mais uma rodada de cocaína e uísque. No penúltimo tiro nossos corações estavam a mil por hora. Era alegria artificial demais para nossa tristeza real. E a noite estava apenas começando.

A meia noite os fogos estouram na cidade. A vista que tínhamos era impressionante. Cada estouro atingia nossos tímpanos como um bombardeio de emoções. Nossos olhares brilhavam na escuridão de nossas almas, brilho que se misturava com as luzes que propagavam dos fogos de artifício. O ano estava começando da maneira mais horrenda e surreal. Em cada explosão, meu coração batia cada vez mais forte, parecia que uma pancada no meio da minha caixa torácica. Era uma mistura de euforia e medo. Euforia daquele momento tão especial com o medo de um ataque cardíaco. A mente entorpecida me descolava daquela realidade irreal. Ao final dos estouros víamos apenas uma densa nuvem que cobria o horizonte. Parecia aquelas manhãs maravilhosas em que a névoa da manhã anunciava um dia ensolarado. Com o anúncio da calmaria iríamos nos preparar para a fase seguinte do nosso ritual. Essa era a fase mais dramática do uso. Por mais que passássemos por maus momentos, gostávamos do que fazíamos. E não há explicação para tanta contradição. Agora era a hora dos mesclados.

João abre uma paranga e começa a dechavar um punhado de maconha. Enquanto isso, Pép’s abre um papelote de crack e trabalha a droga, para que ela fique em pó. Minha parte consistia em trabalhar a seda que seria usada na confecção do cigarro de mesclado. O diabo olhava pacientemente todo o processo. Colocava a maconha no pedaço de seda, jogava o crack por cima da maconha, misturava e depois enrolava o cigarro. Acendíamos um cigarro para acender o baseado e fumávamos ao estilo carioca, ou seja, uma tragada cada um para render a droga. A sensação era instantânea. Cada um se fechava no seu mundo, era o retorno ao dionisíaco. O mundo e o indivíduo faziam parte de uma coisa só.  O pensamento era acelerado em mil vezes. O peito parecia uma escola de samba, era a taquicardia. Ao contrário da outra droga que tínhamos usado, essa nos fechava, o medo dominava nossos pensamentos, qualquer barulho era motivo para pensar que tínhamos sido descobertos por alguma força policial, e que seríamos presos naquele instante. Pép’s, no auge de sua loucura, colocava o dedo indicador frente aos lábios pedindo silêncio. João se preocupava em buscar o spray aromático para espalhar no ambiente. O cheiro de borracha queimada impregnava a sala. Depois de dez minutos, quando o efeito terminava, fazíamos todo o processo de confecção novamente. O ciclo do medo voltava para mais uma rodada de desesperança. O uísque já não tinha gosto de nada, parecia água. Arrisquei-me em dizer que o uísque estava descendo suavemente pela garganta. Não obtive resposta, os dois continuaram quietos e presos no mundo dionisíaco.

O pior momento é quando estamos confeccionando o último cigarro de mesclado. Sabemos que aquele é o último e que não tínhamos mais dinheiro nos bolsos. O uísque estava no final e a nossa comemoração estava chegando ao momento mais angustiante. Fumamos o último cigarro, bebemos o último gole e decidimos ir embora. Falamos poucas palavras, nossos rostos demonstravam o medo que sentíamos com o uso daquela droga. Eu e o Pép’s tínhamos que voltar a pé para nossas casas. A madrugada parecia o umbral, com bêbados caídos nas calçadas, carros passando pelas ruas em alta velocidade e nós, dois diabos entorpecidos pelas nossas escolhas. Da euforia, só restou a depressão, a vontade de usar mais, e o arrependimento.

Ao chegar próximo à minha casa, me despeço com um aperto de mão e sem dizermos uma palavra, entro para minha casa. Chego ao meu quarto, tiro minhas roupas, vou em direção da cozinha e procuro uma garrafa de pinga que costumo guardar embaixo da pia. Bebo dois copos de pinga como se fosse água mineral e volto para meu quarto para deitar em minha cama. A pinga me deixa em outro estado de espírito, totalmente alcoolizado. Quando coloco minha cabeça no travesseiro vejo tudo rodar e em seguida desmaio. E assim entro por mais um ano, totalmente desconectado de minha realidade. Realidade esta que me assombra, que mata meus desejos, que me faz parecer um animal irracional.

“Assustado, apavorado
Mergulhado na deprê
Na pressão sem consciência
A real é ilusão
Me sinto sufocado
No limite da razão.” [i]


[i] Letra da música “Correria” da banda de Thrash Metal Paulista – Korzus.

(Des)conto de Natal

Falta uma semana para o Natal. Não importa o ano, pois todos os Natais são iguais. Acordo com uma sensação ruim, me sinto desconectado desse universo, ou melhor, desse espírito natalino que toma conta de tudo e de todos. Minhas primeiras horas do dia são as piores, pois não sinto vontade de falar com ninguém e penso somente naquilo que preciso fazer, ou não fazer, durante o dia. É o amanhecer mórbido.

Eu nem acabo de levantar da cama e já vejo meu irmão, Carlos Rocha, de pé ao lado da cama me fazendo perguntas nas quais não consigo fazer conexões com a realidade. Simplesmente não respondo. Levanto-me e vou ao banheiro. Para o meu irmão, essa é uma atitude desrespeitosa, pois para ele já deveria levantar e dizer um caloroso “Bom dia meu querido e amado irmão”!

Ao sair do banheiro sou bombardeado de reclamações sobre os meus outros irmãos que não entram em contato conosco para saber como iríamos passar a noite de Natal. Sinceramente eu não me incomodo com isso, todos têm a liberdade de fazer o que quiser da vida. Se eles não ligam é porque tem alguma razão, ou porque simplesmente estão atarefados com suas famílias. As reclamações prosseguem: _ Que porra de família! _ Ninguém quer saber do outro de jeito nenhum! _ Eu vou embora dessa casa e ninguém vai saber onde estarei morando e como eu estou! Ouço todo esse desespero calmamente. Como não queria me aborrecer logo cedo, arrumei minha mala, peguei um livro que meu amigo Bezerra me presenteou e vou para a rua sem dar uma palavra. Bezerra me presenteou com o livro: O Suplício do Papai Noel de Claude Lévi-Strauss. Esse livro parece-me que seria o ideal para ler durante essas festas de fim de ano.

Ao sair de casa caminho pelas ruas de meu bairro pensando nesse episódio que se sucedeu pela manhã. Sempre ouvi dizer dos mais velhos que quando se planta limão, colhe-se limão. Não há como colher morangos se plantamos limões. Plantamos ódio durante anos e agora só nos restam ódios entre os irmãos. O Natal morreu quando nosso pai morreu há uns anos atrás. Logo depois de sua morte acusávamos uns aos outros sobre a mesquinhez de todos perante a herança deixada pelo Sr. Moisés, nosso pai. Eu, Willian Rocha, peguei somente o “bagaço da laranja” deixada pelos irmãos, uma vez que eu sou o caçula. Antes de eu nascer, já existia uma plantação de ódio cultivada pela família. Na verdade eu sou o colhedor dessa plantação, apesar de mudar minha forma de semear minha vida com outras coisas que são de meu interesse. O ódio eu já sabia como era o gosto, queria provar de outras coisas, queria provar o amor, a compaixão, as descobertas, e tudo aquilo que me faria um homem realmente. Para mim nada estava escrito, sou eu que escrevo.

Vou em direção ao restaurante popular do bairro. Restaurante este que oferece um prato de comida por 01 Cruzeiro. Na fila do restaurante tem de tudo: mendigos, idosos, viciados em drogas, alcoólatras, e trabalhadores que economizam seu dinheiro do almoço, oferecido pelas firmas, pagando uma moeda de um cruzeiro. Na minha frente tem três mulheres de meia idade que aparentavam ter seus 50 anos de idade. Estavam bem vestidas e penso que elas não tinham necessidade de estar nesse restaurante, podiam pagar por um almoço bem mais digno em algum restaurante “bon gourmet”. Bom, cada um gasta seu dinheiro da melhor forma possível, se elas querem comer no restaurante popular, o problema é delas! Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado!

Sem querer ouvir, mas ouvindo, ouvia aquelas velhas reclamações de velho. O som que chegava ao meu ouvido eu pior que o som de uma banda de Black Metal, era muito, mas muito mais distorcido. Reclamações de parentes, autoflagelações e auto-acusações por meio de uma terapia de espelho quebrado. Na opinião dessas velhas, todos eram pessoas ruins e malvadas, menos elas mesmas. Se tudo aquilo fosse verdade, então para mim elas estavam no mundo errado. Ao chegar no caixa, a primeira paga com uma nota de 50 Cruzeiros e a segunda com uma nota de 10 Cruzeiros, o que faz acabar com todo o troco do caixa. Atrás de mim tinha um rapaz que possuía algum problema cognitivo ou psicológico, pois parecia que vivia numa eterna “brisa”. Repetiu durante toda a nossa estadia na fila que era semana de ceia de Natal, e que iria comer bastante panettones. Sua inocência era tamanha que preferi dar atenção a ele concordando com tudo que ele dizia e repetia. Talvez porque ele não conhecia sobre a maçã. Penso até que ele nunca tinha comido a maçã.

Quando estávamos para pegar nossa badeja de comida, duas velhas começam a olhar “torto” uma para outra. Uma acusava a outra de lerdeza pelo fato de que a velha da frente não tinha a habilidade de transpor sua bandeja com toda a técnica necessária para que a fila não ficasse atrasada. A velha que estava logo na minha frente se irritou com a lerdeza da velha à frente dela e por maldade deu um cutucão no braço desta, derrubando toda sua comida no chão. O fuzuê estava armado. Era uma gritando com a outra palavras que se Jesus Cristo estivesse por lá, teria mandando-as para o inferno sem direito a purgatório. Dante era um menino bonzinho. Com uma jogada de atacante de futebol, dei uma finta nas velhas, prossegui para as mesas, e sentei perto dos mendigos. Esses pelo menos sabiam comer em paz exterior. A guerra deles era interna, e ninguém tinha o direito de saber sobre suas guerras civis. Logo após veio o cordeiro de deus, o mesmo rapaz que vivia repetindo sobre os panettones, e sentou-se ao meu lado. Ai meu deus! Como esse menino elogiava a comida! Para ele tinha sido a melhor comida de todos os tempos desde quando Jesus repartiu o pão com os seus adoradores. O máximo que poderia fazer era comer em paz gesticulando com a cabeça de forma positiva tudo aquilo que ele repetia. No final da ceia desse rapaz, ele olha para um mendigo que estava sentado em sua frente e oferece a sua sobremesa. O mendigo sem questionar e quase que de forma robótica, pega a sobremesa e guarda rapidamente no bolso. O cordeiro de deus se despede das pessoas da mesa e vai embora, alegre e feliz, como se aquele fosse seu último dia na Terra.

Ao sair do restaurante, vou em direção a biblioteca municipal do meu bairro. A biblioteca é o meu refúgio, é onde eu encontro a paz que preciso, é onde eu leio o Ser e o Nada de Jean Paul Sartre e entendo o meu lugar nesse mundo. Hoje estava mais para o Nada do que para o Ser. Para entrar na biblioteca é preciso primeiro entrar no hall do prédio da prefeitura. Ao chegar no hall vejo uma multidão gritando e reclamando pela demora no atendimento dos funcionários. Não entendi o estava acontecendo, só entendi que era para algum acordo em que os moradores fariam com a prefeitura para o atraso de contas. Ao chegar à recepção uma das recepcionistas estava discutindo com um morador aos gritos. Minha cabeça doía cada vez mais até que a outra recepcionista me chamou e me perguntou o que eu queria por lá: _ O que deseja senhor? _ Quero ir à biblioteca, disse. A recepcionista pergunta como um robô: _Seu nome e registro. Respondo calmamente: _Willian Rocha, número 71421666. Pego o crachá de acesso e deixo aquele povo reclamando.

Entro na biblioteca, respiro fundo e folheio o livro que meu amigo Bezerra me deu. Abro numa página qualquer e vejo a seguinte notícia:

PAPAI NOEL É QUEIMADO NO ÁTRIO DA CATEDRAL DE DIJON DIANTE DE CRIANÇAS DE ORFANATOS.

Essa simples leitura acalmou minha alma. Sabia que teria uma boa leitura do livro do vovô Lévi-Strauss. Sabia que eu não estava tão errado perante os acontecimentos de véspera de Natal. Eu só precisava de paz, precisava começar a semear minhas plantações para o próximo ano. Precisava cultivar outras culturas, culturas de paz, de paz comigo mesmo. A guerra civil mental tinha acabado há anos e não tinha razão de declarar outra. Precisava da esperança…

G.Stoner

Dimebag Darrell

Hoje, 08 de dezembro, é aniversário da morte do ex-guitarrista da banda de heavy metal Pantera: Dimebag Darrell. Dimebag foi assassinado por um fã durante a apresentação de sua banda pós Pantera. O assassino não se conformava com o fim do Pantera, e num ato de raiva e frustração disparou contra um dos melhores guitarristas da década de 90.

O ano era 1993. Foi quando conheci, por meio de meus amigos headbangers, o disco que revolucionaria o cenário do estilo. A capa do LP é violenta e me chamou a atenção desde o primeiro olhar. Uma pessoa esmurrando a face de outra. A sonoridade vinha de encontro com que a ilustração propunha. Realmente ouvir Vulgar Display of Power era como se tivesse tomado uma porrada na orelha. O disco influenciou toda uma geração. Era o contraponto do movimento Grunge que estava no auge. Vivíamos comentando, com meus amigos headbangers, que o Pantera tinha sido a salvação diante do insuportável bombardeio musical, por meio de vídeos clipes vinculados pela MTV Brasileira, e da incessante reprodução das músicas como Smells Like Teen Spirit nas rádios rock paulistanas.

Hoje me lembro perfeitamente que essa era a época em que eu era um hard fã. Somente o metal salvava minha vida (risos). O Pantera foi uma daquelas bandas que você se apaixona logo à primeira audição, vira fã e acompanha todas as notícias da banda. Na época era por meio das revistas como a Rock Brigade e de informações que colhíamos de vendedores das lojas de discos da Galeria do Rock que ficávamos sabendo sobre shows, discos e curiosidades das bandas.  Foi assim que me tornei mais um fã do Pantera. A salvação perante a onda Grunge.

Em 1995 não perdia nenhum programa de metal. Via o Fúria Metal pela MTV e ouvia o programa de Vitão Bonesso pela extinta BRASIL 2000 FM de São Paulo – o Backstage. O Backstage era transmitido sempre aos domingos às 22h00min (e ainda é transmitido pela Kiss FM). Estava ouvindo o programa, como de costume, quando Vitão anunciou ingressos gratuitos para o show do Pantera em São Paulo na casa de espetáculos Olímpia. Era necessário ligar para a rádio e deixar seu nome para o sorteio. Imediatamente peguei umas fichas telefônicas e fui até o orelhão da esquina para ligar, pois na minha casa não tínhamos telefone residencial. Fiquei cerca de meia hora tentando ligar, pois a linha estava sempre ocupada. Quando consegui, deixei meu nome e voltei para casa para terminar de ouvir o programa.

No final do programa Vitão anuncia os ganhadores. Estava tenso, pensava que não iria ganhar, pois eram muitas ligações e a chance era mínima. Eis que o Vitão anuncia, de forma jocosa, meu nome: Guilherme Stoner das Neves, ou deve ser Guilherme monstro das Neves! Lembro-me que caí na risada, e de forma alegre e contente, por ter ganhado o ingresso, mandei o Vitão se fuder, como se eu estivesse conversando com o rádio.

Fui buscar o ingresso na sede da BRASIL 2000. Peguei o ingresso com o carimbo de cortesia da rádio e voltei para casa todo feliz. Fiquei esperando pelo dia do show. No dia do show fui até a porta da escola onde estudava e perguntei se alguém tinha o interesse de ir até o show comigo. Como todos estavam sem grana, por isso fui sozinho ao show. Chegando ao Olímpia, conheço uma turma de metaleiros doidos que vinham do interior para ver o show. Fiz amizade com eles, bebemos algumas cervejas no bar próximo à casa de espetáculos, e conversamos nossas expectativas sobre o show do Pantera. A rua Clélia, na Lapa, estava lotada de pessoas para ver Dimebag e sua turma.

Resolvo entrar no Olímpia. O lugar estava simplesmente lotado! Não conseguia sequer ir para frente, pela quantidade de gente que estava no local. Fico ao lado da mesa de som, que se situava ao fundo da pista. Estava aborrecido, pois iria ver de longe a banda. Foi quando apagaram as luzes e ouvimos as notas iniciais de The New Level. Foi um dos momentos mais loucos que presenciei como headbanger. Houve uma tormenta de gente, um pandemônio que se seguiu nos primeiros instantes do show. Um grande moshpit se fez na pista do Olímpia. Eu que estava no fundo, consegui me deslocar para bem próximo das grades que separam o público do palco.  Tinha me redimido, estava agora assistindo o show da banda nos melhores lugares da pista, ou seja, na frente. Foi uma noite espetacular que até hoje guardo com carinho o ingresso carimbado pela radio BRASIL 2000.

Graças ao Vitão Bonesso, tive a honra de ver ao vivo uma das bandas mais importante do metal nos anos 90. A banda que me salvou da onda Grunge (risos). A banda que tinha um dos melhores guitarristas de todos os tempos: Dimebag Darrell. Descanse em Paz Dimebag, e obrigado pela sua contribuição no alívio dos meus tormentos com seus riffs.

Black Sabbath e o 11-11-11

No cabalístico dia 11 de novembro de 2011 recebemos a notícia mais esperada por qualquer fã de heavy metal: o retorno do Black Sabbath. O anúncio do retorno dos integrantes originais da banda comoveu muita gente. Penso que foi a notícia mais aguardada pelos fãs de heavy metal. Mas fica a pergunta: o que devemos esperar desse grande retorno?

Vale retornar no tempo para analisar a importância de uma banda para com seu meio. O Black Sabbath surgiu em 1968 na cidade de Birmingham na Inglaterra. A idéia inicial era transformar a idéia de se fazer música de terror, macabra, ou seja, transpor a idéia do filme de terror para a música. Vale lembrar que o nome provém do filme de terror italiano do diretor Mario Bava, I Tre Volti Della Paura (As Três Máscaras do Terror) de 1963, mas exibido com o nome de Black Sabbath na Inglaterra e EUA.

Até a aparição da banda era impossível imaginar uma banda de rock fazer música de terror. É importante ressaltar, também, a origem dos integrantes da banda. Birmingham é uma cidade industrial importante da Inglaterra, e a historia pessoal dos integrantes demonstram que eles eram da classe operária. O próprio Tony Iommi, guitarrista da banda, era operário, e reza a lenda que este perdeu as pontas dos dedos numa máquina compressora de metais. Após o acidente, Tony consultou vários médicos, e todos o desencorajaram de voltar a tocar o instrumento. E graças a sua insistência, não foi que se sucedeu.

Há 17 anos, durante a apresentação da banda no primeiro Monster of Rock brasileiro, o Black Sabbath concedeu uma entrevista ao VJ da MTV Brasil, Gastão Moreira, sobre a expectativa de se apresentar no primeiro festival de heavy metal do Brasil e da história dos primeiros anos da banda. Conforme os integrantes, a primeira apresentação da banda no final dos anos 60 causou espanto na platéia com a música Black Sabbath. E sinceramente penso que até hoje ela causa espanto! Pois bem, essa foi a primeira revolução da música, que dura até hoje. Desde a primeira apresentação até hoje, são 41 anos de Heavy Metal.

Em 1978 vem a primeira decepção para com os fãs do Black Sabbath: a saída do vocalista Ozzy Osbourne. Neste período o punk estava no auge, era a música do momento. As guitarras trabalhadas foram substituídas pelos acordes simples de no máximo três notas, com vocais rasgados, e temas que relatavam protestos sociais.

Paralelamente estava surgindo o movimento que iria revolucionar o mundo do heavy metal. O NWOBHM ou New Wave of British Heavy Metal seria a nova onda que iria resgatar todo o peso do estilo, com guitarras trabalhadas e melódicas, vocais operísticos e uma energia que só o heavy metal possui. As bandas que encabeçaram este movimento foram o Iron Maiden, Judas Priest, Def Leppard, Saxon, Tygers of Pan Tang, Venom, Diamond Head, Blitzkrieg, Angel Witch, dentre outras. Este seria o resgate do movimento heavy metal.

O ano de 1980 foi um dos principais anos para o heavy metal da história. Foi o ano mais “efervescente” até hoje com diversos álbuns importantes já lançados, álbuns que se tornariam clássicos e que deveria estar na discoteca de qualquer fã de heavy metal. É também o ano que aconteceria o primeiro grande festival de heavy metal do mundo: O Monster  of Rock em Donington Park na Inglaterra. Eis que no ano de 1980, o Black Sabbath lança seu primeiro álbum sem Ozzy Osbourne nos vocais. O álbum até hoje é um grande clássico e ajudou a transformar o mundo do heavy metal com um dos maiores vocalistas do estilo: Ronnie James Dio.  Ronnie James Dio vinha de uma carreira fantástica tendo tocado em bandas como o Elf e o Rainbow. Ele é o criador do Maloik, o sinal que foi reutilizado pelo heavy metal. O Maloik passou a ser utilizado por Dio devido a sua descendência italiana.

O álbum foi intitulado como Heaven and Hell e este foi a segunda revolução no estilo. Dio teve uma grande participação junto ao Black Sabbath e chegou a agradar até os fãs mais fiéis a banda com a formação original.

Depois de 41 anos em que a nota diabólica do Black Sabbath foi tocada, recebemos a notícia de que a banda retornaria a ativa, lançando um álbum inédito, que será produzido por Rick Rubin, e faria uma turnê mundial. Hoje o heavy metal está subdividido em diversas categorias, quase impossível de classificá-las, com milhares de bandas de surgem a cada instante. A velha guarda, ou o old school, está cada vez mais forte. A nova geração é atraída por bandas atuais, mas nunca se desfazendo das velhas bandas. O underground na Europa é forte, é uma grande rede de relacionamento que constrói todo o aparato para a produção de shows, de álbuns e tudo o que está relacionado ao grupo urbano.

Particularmente espero uma terceira revolução na música e no estilo com o retorno do Black Sabbath. Uma revolução que ditará as novas regras para com o estilo e os fãs, que consolidará novas formas de consumo da música, além de (re)apresentar a importância do heavy metal no cenário musical. Que venha o Black Sabbath!

Filmes, Feriado e Viagens

Hoje, dia 15 de novembro de 2011, passei o dia assistindo filmes na televisão paga.  Assisti filmes que eram inéditos para mim, como o Juventude Transviada, com James Dean, e outros que revi, como Um Sonho de Liberdade, com Morgan Freeman. Este último me chamou a atenção pela história do protagonista do filme, Andy Dufresne, interpretado pelo ator Tim Robbins, em que este é condenado por um crime que não cometeu.

A parte que me chamou realmente a atenção foi quando o diretor da prisão inspeciona a cela de Andy e não o encontra, pois este tinha fugido. É quando uma imagem mostra de relance o quadro de Albert Einstein. Mas o que um quadro de Einstein estava fazendo na cela de um presidiário? É agora que entro na minha viagem.

Einstein disse uma vez que usamos apenas 10% da capacidade cerebral. Será que ele queria que pensássemos que ele fosse um deus? Ou será que ele estava tomando uma atitude arrogante perante o restante da humanidade pelas suas contribuições à ciência e o avanço das tecnologias? Penso que não.

Durante o filme, Andy, um banqueiro que foi condenado pelo assassinato de sua mulher, transforma o meio em que vive – a prisão – num lugar mais “agradável”. Com a ajuda de seus companheiros de prisão, ele amplia e reforma a biblioteca no qual ele era responsável. Além de servir como bibliotecário, Andy torna-se também funcionário contabilista das transações ilegais do diretor do presídio. Com a reforma da biblioteca, Andy oferece um espaço de cultura e lazer aos presidiários. Leciona os internos montando uma escola na própria biblioteca e transforma a vida dos internos. Andy traz a arte e a cultura para o inferno.

Quando Einstein disse que usamos apenas 10% de nossa capacidade cerebral, na verdade ele estava nos provocando. Ele disse isso porque era um cientista e, na minha visão, esse é o papel do cientista: o de provocar. Em épocas remotas, quando um fenômeno natural era classificado como obra de um deus impiedoso, os cientistas procuravam entender e explicar de forma racional o fato. Os cientistas eram provocados pelo meio e pelas circunstâncias em que viviam. Eles transformavam e revolucionavam o seu meio.

Somos provocados o tempo todo por boa parte das pessoas do nosso meio social, pelo meio em que vivemos, pelo nosso cotidiano. Resta saber se vamos aceitar como cordeiros, as idéias que nos são impostas, ou se criaremos idéias que possam transformar nosso mundo. Acho que é assim que Einstein nos provocava com sua frase célebre.

 O meio em que eu vivo é horrível às vezes. São noites mal dormidas, preocupações e humilhações. Se eu contasse para as pessoas comuns, tudo o que eu passo no meu cotidiano, pensariam que tudo isso seria fruto de minha imaginação, ou que tivesse tirado a idéia de algum livro de Dostoievski. Preciso usar meu cérebro, preciso modificar meu meio, preciso acalmar minha alma perturbada.

A frase pode ser desconexa, mas acho válida nesse momento: “Toda Crítica é uma autobiografia” diz Oscar Wilde.

A nunc-modernidade

O mundo está estranho. Nos últimos dias venho observando e analisando como as relações sociais, os problemas financeiros e, principalmente, a nova massa pedante, vem tomando corpo no cotidiano. Parece-me que não existe mais individualidade e nem tampouco “tribalismo” para tomar emprestado o conceito criado pelo sociólogo Michel Maffesoli. O conceito de pós-modernidade está esgotado e arrisco-me a dizer sobre um novo parâmetro de nomenclatura para tentar entender sobre o que acontece no cotidiano. Se este novo conceito já é utilizado ou não, não vem ao caso. Mesmo porque Baudrillard já empregou o termo em alguns de seus textos. O importante foi tentar utilizá-lo para entender sobre o meu cotidiano. Eu estou dizendo sobre a ultramodernidade. E vou até mais além, a nunc-modernidade.

A nunc-modernidade é o agora, é o momento, vai muito mais além da pós-modernidade. Penso até que o nunc é o resultado da pós-modernidade. O que importa é o momento atual, levado as últimas conseqüências, porque não leva em conta o passado remoto. É o passado de alguns instantes atrás, no máximo alguns dias. O futuro, neste caso, também não é levado em conta, não porque está superado as lutas de classes, por exemplo, mas porque não tem o que pensar sobre o futuro. Seria como se todos fossem crianças mimadas: “_eu quero agora! Amanhã não me importa!” ´

Além dessa temporalidade macabra que está no diálogo das pessoas no cotidiano, vejo também outra conseqüência dessa maldita pós-modernidade: o pedantismo e a falta de sensibilidade. O mais cruel é que às vezes me encontro nessas formas de cotidiano, como se isso fosse uma doença contagiante que me pega quando fecho os olhos e o cérebro para entender realmente o que acontece. O pedantismo seria o propagar de idéias anacrônicas e de forma muito superficial e distorcida. O mais estranho é como isso está em voga em plena era da internet. É uma das contradições mais terríveis que vejo no meu tempo. E me denuncio nessa prática. Pode estar até neste texto que escrevo para aliviar meu estranhamento.  Mas como estamos no nunc-modernidade essa leitura será esquecida por você, que perdeu seu precioso tempo lendo este texto. E então serei perdoado pela minha ignorância.

O pedantismo está em todo o lugar. Poderia citar vários exemplos, mas ficarei no grupo social que está mais próximo de mim no momento e que passo a maior parte de meu dia: a faculdade. Vejo o movimento estudantil que há tempos “luta” pela melhoria do campus. A luta está entre aspas porque não há mais a luta que víamos no final dos anos 60 do séc. XX. A luta agora é por status em nome dos estudantes, de TODOS os estudantes. Invoco até um resumo desse debate feito por Karl Marx: “Quando se fala do povo, eu me pergunto o que está sendo tramado contra o proletariado”.  Se você não concorda com as idéias, ou pelo menos tenta apresentar por meio do debate algo diferente, você incorpora todo o tipo de nomes horríveis que você não é. Essa nomeação dirigida a você é o que considero de pedantismo do nunc-modernidade. Foram várias as vezes que fui, e ainda sou, “taxado” de conservador, ou pelego, ou ainda fascista. Apenas porque sou contra a algo que a meu ver é inconseqüente e momentâneo.

O mais estúpido é ser “taxado” com esses nomes por alguém que tem um nível de vida muito superior ao meu. Não tem necessidade de se preocupar com contas, alimentação ou mais alguma coisinha do mimo desses jovens que vivem à custa de algum familiar. Não vejo nada de errado nisso, eu até gostaria de ser assim, mas a atual situação não me permite. O problema são as falsas imagens desse movimento estudantil. O rico querendo ser pobre. Jovens que andam com roupas “largadas” que compraram nas lojas mais caras do mercado, favorecendo a indústria transnacional, que vão de carro importado para a faculdade e que possuem um discurso do contra tudo e contra todos. Muitos dizem assim: “_Sou a favor da esquerda, mas não mexam no meu carro que está estacionado na rua.” Eu mesmo me pergunto: mas como assim? Outro exemplo que meus amigos e colegas de miséria material viram foi o do estudante ouvindo uma música do grupo de rap RACIONAIS MC’s. Este estava todo empolgado, sabia a letra de cor e salteado, mas ao sair do campus, entrou no seu carro importado e foi-se embora, quem sabe para a Vila Madalena. Seria trágico se não fosse cômico. O mais engraçado foi quando um amigo foi questionado por um desses estudantes do tal “movimento estudantil”. Esse meu amigo foi abordado e perguntaram-lhe se este era marxista. Sabiamente respondeu: “_ Não sou marxista, sou um desempregado”. O rapaz do movimento não teve como responder e ficou perplexo.

Vamos agora à falta de sensibilidade. Essa parte é a mais cruel dos relacionamentos sociais. Cruel porque não leva em conta o que você faz, o que deixa de fazer, e sua trajetória de vida. Você é aquilo que fez naquele momento e isso já basta. Seria algo até redundante no que foi dito até agora, ou talvez tivesse ligação com o pedantismo. Para as pessoas que têm a vida dura, difícil no cotidiano, com diversas ocupações e preocupações, não basta para ser reconhecido como pessoa. Você tem que ser “algo”. Algo que demonstre sua posição social. Mas como ser algo se as preocupações do cotidiano tomam a maior parte do seu tempo? As vezes é preciso não ser, para poder conseguir o mínimo de conforto e poder conquistar um lugar ao sol. Não é apenas pelo fato de você não fazer parte de algo que suas idéias são contrárias, e isso não é levado em conta. E é nesse caso que a crueldade toma conta do ser. Muitas das vezes sou um não-ser, por não estar nem de um lado nem de outro. Florestan Fernandes, ilustre sociólogo brasileiro, passou pela mesma situação. Enquanto estudava na USP este não era considerado nem pela elite da universidade, porque provinha da classe baixa, e nem dos grupos sociais próximos a ele, porque tinha se ingressado na universidade. Como resolver essa situação? Eu não sei.

Se existe algo que exprime de forma rápida, estúpida e pedante a nunc-modernidade é a propaganda comercial de um cartão de crédito: “A VIDA É AGORA”. E como já disse Georg Simmel: “O dinheiro é o Deus da modernidade”. Você é o que têm. E isso está relacionado em todas as redes sociais no qual você faz parte. Sad but true como diria a música do Metallica.

Fico por aqui, deixando esse vômito de letras em conseqüência do meu mal-estar social. A pintura de Edvard Munch ainda exprime o mal-estar do indivíduo com o mundo, e é nesse viés que resgato tal obra de arte para “cegar” o agora.  Deixo também uma música do grupo de rock dos anos 70: Elf. Minha interpretação vai ao encontro do que disse hoje…

Stars – 1985

O inferno está cheio de boas intenções, como diz o velho ditado popular. Pode até ser verdade, mas fazer algo que ao menos nos alerte para problemas como fome, AIDS e massacres de etnias parece estar longe do nosso cotidiano. As notícias que mostram a miséria do ser humano em regiões longínquas como África (e até mesmo ao nosso lado, nas periferias da vida) são como produtos descartáveis. Compra, consome e descarta. O disco Hear ‘n Aid foi uma proposta das estrelas do Heavy Metal para arrecadar fundos para a questão da fome na África.

O disco gravado nos dias 20 e 21 de Maio de 1985, em que de 40 artistas da comunidade do Heavy Metal se reuninram nos Estúdios da A&M em Hollywood, na Califórnia, para doar seu tempo e talento, para uma canção escrita por Ronnie James Dio. Eles produziram uma música chamada “Stars”, a idéia foi dos músicos Vivian Campbell, e Jimmy Bain (ambos da banda Dio). A idéia surgiu depois do sucesso de projetos como o Band Aid no Reino Unido, e o USA for Africa nos Estados Unidos. Também foi lançado em video, o clipe da música e making off, e um documentário sobre o projeto. Em meados de 1987 o Hear’n Aid arrecadou e doou, cerca de U$$1.000.000,00 para o projeto.

Lógico que esse tipo de proposta não resolve o problema, não há dúvida nisso. Mas o interessante é ver algo que já não acontece no meio Metal ou Rock se quisermos generalizar a situação. Se o Heavy Metal é um estilo de música, que como arte, nos apresenta a realidade de forma nua e crua, então a proposta foi, é, e será sempre bem vinda. Parece que esse tipo de proposta foi esquecida pelas novas bandas, o que é uma pena. Rock and Roll também é protesto, e não somente diversão, ou então subir ao palco para gritar e reclamar da igreja. Isso é uma lição que vem lá dos anos 80…

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