Te pego lá no Mosh!
São Paulo, 28 de abril de 2012
Não é possível imaginar um show da banda nova-iorquina Anthrax sem a prática do mosh. O Anthrax é uma das maiores referências do estilo musical e do subgênero Thrash Metal. Foi uma das primeiras bandas de Metal a apresentar o circle pit em um dos de seus vídeos clipes vinculados, na época, pela MTV norte-americana. É também a banda que possui uma canção que referencia a prática do mosh nos shows de Metal. A importância da banda Anthrax no cenário do Heavy Metal e da prática do mosh é inquestionável. No dia 27 de abril presenciaria a apresentação do Anthrax e da banda de Horror Punk – subgênero do Punk – Misfits.
Os shows foram realizados na casa de espetáculos HSBC Brasil, na zona sul de São Paulo. O interessante foi presenciar duas bandas de estilos e públicos diferentes e as práticas do mosh. O público presente nos shows era heterogêneo. Havia adolescentes com faixa etária entre 14 e 17 anos de idade, muitos acompanhados dos pais, jovens com idade entre 25 e 35 anos de idade, e adultos com idade entre 40 e 50 anos de idade. Outro ponto interessante foi o encontro entre tribos diferentes no mesmo local convivendo pacificamente. De um lado punks que vieram para apreciar o show dos Misfits; de outro, headbangers que estavam em grande número para saudar o Anthrax. Apesar das diferenças de idades e de “tribos”, havia algo em que estes compartilhavam em comum: o mosh.
A noite estava tipicamente paulistana, com chuviscos por toda a cidade. Saio de casa com algumas horas de antecedência para que não ocorressem contratempos. Precisava me dirigir até o centro de São Paulo – na Praça da Bandeira – para tomar um ônibus que me levasse para a zona sul da cidade, próximo à casa de eventos. Foi uma viagem longa, que durou aproximadamente uma hora e meia. Ao embarcar no ônibus, que me levaria até as proximidades do HSBC Brasil, pergunto ao cobrador se aquele ônibus me deixaria próximo à casa de espetáculo. O cobrador gentilmente responde que sim e me questionou: _ Você vai ver o show do Lulu Santos? Respondo que não, que iria ver um show de rock pesado. O engraçado foi ver a expressão de susto deste e, em seguida, sua fala: _ Então vai ter um monte de gente de camiseta preta! Sorrio e me dirijo até a poltrona para apreciar a paisagem da noite paulistana com chuva.
Ao chegar aos arredores da casa vejo a concentração dos “camisetas pretas”. São headbangers e punks bebendo cerveja nos bares próximos a casa, vendedores de camisetas das bandas (os camiseteiros) e os vendedores ambulantes de bebidas. O momento pré-show serve como concentração dos adeptos. É neste momento em que as pessoas se encontram para conversar sobre as expectativas do show, de encontrar e reencontrar amigos e colocar a conversa em dia. Vejo alguns camiseteiros que conheci no show do Soulfly e vou até eles para cumprimentá-los. Bebo um refrigerante, fumo um cigarro e aguardo alguns instantes para adentrar na casa de espetáculos.
Seria a minha primeira vez que assistiria a um show no HSBC Brasil. O HSBC Brasil é considerado uma das melhores casas de espetáculos de São Paulo. Esta casa possui boa estrutura e espaço amplo com dois pisos. O piso inferior é onde se localiza a pista, com espaço bem amplo, e ao fundo a mesa de som. As cadeiras e a “arquibancada” estão situadas no piso superior. Assim como na casa de espetáculos Via Funchal, no HSBC Brasil é possível apreciar o show de qualquer lugar na pista, tendo uma visão privilegiada do espetáculo.
Resolvo entrar. Passo pelos procedimentos habituais de segurança e chego à pista. No momento em que entrei na pista, a banda de abertura Torture Squad de Trash Metal estava encerrando sua apresentação. Começa os preparativos para o show do Misfits. Observo os fãs, ansiosos para assistir a banda de Horror Punk que usa e abusa de caveiras e personagens monstruosos nas letras e no cenário do palco. A maioria do público que estava presente para assistir o Misfits era de adolescentes, com idades entre 14 e 19 anos de idades. Muitos estavam acompanhados pelos pais. Caminho até próximo da grade que separa o público e o palco. Neste momento sinto que estava deslocado, pois haviam alguns punks próximos a mim, mas nada que gerasse algum desconforto. Estávamos pacíficos.
O show do Misfits começa e dá início aos empurra-empurras. As “covas” de mosh pit são abertas e começa a diversão. Uma roda de mosh pit abre-se a alguns metros atrás de mim. Observo por alguns instantes e continuo a apreciar o show. Apesar da prática do mosh ser considerada violenta por não adeptos, observo que no momento da celebração os adeptos encaram o mosh como parte do show, de um sistema como num todo. A regra é simples para os adeptos: quem não estiver de acordo com a prática do mosh, deve assistir ao show de uma região afastada do palco. Logo nas primeiras músicas do show, muitos desistem de apreciar o espetáculo nas regiões próximas ao palco. Começam, então, as práticas de outra categoria do mosh: o crowding surfing.
O crowding surfing foi uma constante no show do Misfits. Essa categoria do mosh consiste num movimento no qual uma pessoa é passado por cima das cabeças de várias pessoas durante o show, deslocando a pessoa de um lugar para outro. O crowd surfing é realizado por apenas diversão, ou quando alguém na pista precisa de socorro e precisa ser removido para a parte frontal do palco, onde se localiza a equipe de socorristas. Nesta noite o crowding surfing foi realizado por diversão e, também, para prestar auxílio aos adeptos que estavam “passando mal”. É interessante ver que tanto para diversão como para socorrer, o crowding surfing exige dos adeptos próximos ao praticante a ajuda necessária para erguer o corpo que irá surfar pela cabeça dos espectadores. Basta apenas um pedido. Simples assim. Muitos que estavam na parte frontal, não agüentaram a pressão do empurra-empurra e dos corpos passando por cima de suas cabeças e pediram auxílio para sair da pista. Não há outro jeito. É praticamente impossível retornar pelo público para a parte mais afastada da pista. Ou agüenta, ou pede para sair.
Quando praticado por diversão, o crowding surfing cumpre sua função de oferecer ao praticante a experiência de sentir-se seguro por meio dessa prática simbólica do corpo. O Heavy Metal, no seu todo, possui a capacidade de transmitir por meio da música e, principalmente, das letras das canções, a segurança e a sensação de pertencimento a algo maior que o próprio headbanger. Se o metal é um estilo de música em que os adeptos ouvem por se sentirem seguros, fortes ou que simplesmente ajuda na pressão do cotidiano, o crowd surfing realiza esse papel de forma expressiva no concerto por meio de representações corporais. Enquanto o corpo é passado por cima de várias pessoas durante o movimento, tais pessoas formam a base segura em que se possa confiar assim como no metal.
O espetáculo de Horror Punk do Misfits termina e começa a “troca” de lugares de tribos dos espaços físicos da pista. Os adolescentes começam a se retirar das partes frontais do palco para dar espaço aos headbangers old school[1]. A maioria das pessoas que estão nas partes frontais da pista são jovens de 25 a 40 anos de idade. Pensei comigo: “agora o bicho vai pegar”. A expectativa para o show do Anthrax estava estampada nos rostos dos espectadores. Como a parte frontal foi liberada pelos fãs do Misfits, estava ainda mais próximo da grade. Antes mesmo do show, o empurra-empurra foi uma constante. Para estar próximo à grade é necessário de o mínimo de resistência física para agüentar os movimentos.
As luzes se apagam e a histeria do público toma conta do HSBC Brasil. O mar de gente torna-se então, um mar de tormenta. São headbangers que começam a bangear a cabeça, outros tentando abrir uma roda de mosh pit, outros se preocupando em registrar o momento seja por meio de fotografia, seja por câmera; outros apreciando o show como se estivessem vendo uma orquestra, com olhares e ouvidos atentos em direção ao palco.
Nas duas primeiras músicas, o empurra-empurra era uma constante. Muitas pessoas pediram para serem levantadas para que a equipe de socorristas pudesse retirá-las da parte frontal da pista. Era realmente um pandemônio. Uma das canções que se seguiriam era a famosa Caught in the Mosh. Esta canção é uma referência à prática do mosh.
Why don’t you listen to me when I try to talk to you
Stop thinking of yourself, for just a second fool
Shut up, shut up, I don’t wanna hear your mouth
Your mother made a monster, now get the hell out of my house
Can’t stand it for another day
I ain’t gonna live my life this way
Cold sweat, my fists are clenching
Stomp, stomp, stomp, the idiot convention
Which one of these words don’t you understand?
Talking to you, is like clapping with one hand
What is it? – Caught in a mosh
Neste momento começaram a abrir diversas rodas de mosh pit. “Pare de pensar em você, por um instante, idiota” frase que talvez sugira as formas de sociabilidades na “cova” do mosh pit. Deixar de lado os problemas do cotidiano para que venha participar da celebração do espetáculo. Sugerindo que o adepto resolva seus problemas na forma de dançar utilizando de seu corpo como vetor de desprendimento de energia. Como havia dito em outro diário de campo: É durante o moshpit que há o momento de catarse no qual o indivíduo se expressa de forma solta e coletiva como forma de interação com os demais adeptos.
Os movimentos dentro do mosh pit podem causar acidentes, mas nada que não possa ser resolvido com um simples pedido de desculpas. Durante todas as apresentações que participei jamais presenciei um início de tumulto ou de briga generalizada por causa de um movimento mal calculado que ferisse algum participante da dança. Outro ponto interessante é o modo como os participantes se ajudam quando algum headbanger caía ao chão devido a um movimento mal calculado, ou por simples desequilíbrio. Este era prontamente socorrido pelos demais participantes da dança que o ajudavam a se levantar. Os headbangers abrem outra roda em torno do participante caído até que este conseguisse se levantar e seguir com o ritual. Diversas vezes durante o espetáculo esse procedimento ocorreu.
O ápice do show ainda estava por vir. Além da musica Caught in a mosh, existe outra que virou um hino para os fãs da banda Anthrax. Hino este que ajudou a propagar, ainda nos anos de 1980, outra prática do mosh: o Circle Pit. O nome da canção é Indians. Esta canção fala sobre as atrocidades cometidas pelo “homem branco” colonizador na questão indígena nos EUA:
We all see black and white
When it comes to someone else’s fight
No one ever gets involved
Apathy can never solve
FORCED OUT-Brave and Mighty
STOLEN LAND-They can’t fight it
HOLD ON-To pride and tradition
Even though they know how much their lives are really missin’
WE’RE DISSIN THEM…
On reservations
A hopeless situation
Respect is something that you earn
Our indian brothers’ getting burned
Original American
Turned into second class citizen
Cry for the Indians
Die for the Indians
Cry for the Indians
Cry, Cry, Cry for the Indians
Love the land and fellow man
Peace is what we strive to have
Some folks have none of this
Hatred and Prejudice
WARDANCE!!!
Nesta parte da música, em que o vocalista grita a palavra WARDANCE, todos são convidados para participar da “Dança da Guerra” ou o Circle Pit. Todos na “cova” formam uma grande roda e começam a correr no sentido anti-horário, juntamente com a velocidade da música. Essa categoria do mosh é o ápice do emprego de energia por parte dos adeptos, seguido da velocidade da música por meio dos bpm´s (batidas por minutos).
Esta música sofreu alteração nesta noite. Antes do grito de guerra, o vocalista pediu aos integrantes da banda para que parassem por alguns instantes a música para pedir aos espectadores que formassem a grande roda para a dança de guerra. Desta vez não me contive em apenas em observar. Virei para trás e fui em direção da grande roda para participar do circle pit. Confesso que esta era a primeira vez que participaria da celebração e devo dizer que foi umas das melhores sensações que tive em um show de Heavy Metal. Participar dessa celebração me exigiu muita energia, pois os adeptos correm em círculo com os braços ligeiramente levantados na altura no tórax como forma de proteção. Enquanto corríamos, seguíamos cantando a letra da música. Realmente, é uma dança de guerra. Estávamos resolvendo nossas angústias e medos na roda.
Depois dessa música, deixei de apreciar o show de forma “passiva” e participei de todos os mosh pits e circle pits até a última música. Ao final do show estava todo suado como se eu tivesse praticado algum esporte. A sensação de estar com as energias esgotadas foi prazerosa. Os momentos pós-show de interação com outros adeptos, e as conversas sobre as músicas e as rodas de mosh foram incríveis. Definitivamente: “É durante o mosh pit que há o momento de catarse no qual o indivíduo se expressa de forma solta e coletiva como forma de interação com os demais adeptos.”
[1] Old School ou a velha escola refere-se a algo que é de épocas passadas. O termo implica, no meio metálico, uma grande consideração ou respeito às bandas e aos fãs de outras gerações. Geralmente descreve uma safra de pelo menos uma geração (20 anos ou mais), mas poderia ser bem mais velho, dependendo do contexto de uso.




















