Pelos caminhos redescobertos do coração.

Um dia de sensações. Muitas sensações. Alegria, tristeza, lembranças do passado, descobertas e satisfações. Assim foi meu dia na Zona Norte. Passei o dia no lugar onde cresci e vivi. Revisitei amigos, descobri novos lugares e conheci algumas pessoas. Isso faz bem. É um retorno às raízes, e isso é uma situação que sempre faz bem. Principalmente em momentos turbulentos. Momentos em que parece tudo perdido, tudo sem rumo, tudo sem o desejo e a vivacidade de continuar a jornada.

Depois de passar algumas horas com amigos de longa data falando sobre a vida, eis que surge uma oportunidade de desfrutar algumas horas num lugar onde passei boa parte da infância e da adolescência: a Serra da Cantareira. Um amigo surge e faz o convite: “Ei! Vamos numa festa junina na Serra?”. Eu não queria ir, de verdade. Tinha que voltar para minha casa, talvez para contemplar minha tristeza. Não estava disposto para conhecer lugar algum e conhecer pessoas. Porem, com muita insistência, aceito ao convite e embarco nesse programa. Afinal de contas era uma festa na Serra. No fundo queria estar ali novamente, pois eu sabia que de alguma maneira me faria bem. E fez.

Embarcamos no automóvel e fomos em direção a Serra pela Avenida Sezefredo Fagundes. Imaginei que iríamos a algum lugar do meu passado. Algo que retomasse minhas memórias. Mas fui surpreendido. Num determinado lugar da avenida o carro entra numa estrada de terra que não tinha ainda conhecido. A estrada de Santa Maria. É um lugar de muitas historias. É onde fica a fazenda dos Alcântara Machado. É um lugar onde o passado permaneceu estático. Um lugar onde diversas famílias portuguesas e italianas preservam os costumes e tradições. Parecia que eu estava adentrando num espaço ainda não descoberto de meu coração.

Estacionamos o carro num ponto da estrada de terra e seguimos o trajeto a pé até as dependências da Fazenda Santa Maria. Decidi entrar de mente e coração abertos. Iria ser o antropólogo de minha própria vida. Observo a casa e me apaixono a primeira vista. Cumprimento os donos e a família e começo a observar a casa e seus detalhes. Casa rústica dos tempos do Brasil Império. Portas e janelas de madeira maciça, largas e altas. Um fogão a lenha, e muitos cachorros pela propriedade. Isso sem contar com as maravilhosas pessoas que conheci. Gente simples, que se autodenominavam “caipiras”. Sempre receptivas e que tinham muita sabedoria de vida que nenhuma faculdade neste mundo possa oferecer. Fiquei encantado.

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O pessoal da fazenda tinha feito uma grande fogueira para a comemoração da festa junina. Meu Deus! Quanto tempo não via uma fogueira! Tinha muita coisa gostosa naquela festa. Coisas que estão em qualquer festa junina, como quentão, vinho quente, comida e por aí vai. Era proibido estar na festa sem estar segurando alguma coisa: uma lata de cerveja, um doce, uma comida. A família proprietária da fazenda, num gesto de receptividade, sempre perguntava se estávamos bem. Outras pessoas de sítios vizinhos apareceram. Todos muito educados e dispostos a engatar uma conversa. Sempre tinha uma conversa para iniciar.

Fiquei observando a fogueira que ainda não estava acessa. Meu amigo chega e faz um convite: “Ei Stoner! Venha aqui. Quero lhe mostrar algo.” Segui meu amigo por alguns passos e chegamos a Casa Grande da Fazenda. A casa pertencia a um dos donos da fazenda. Estava deteriorada. A casa tinha salas de tamanho médio, uma capela e uma grande área livre. Porem o que chamou a atenção foi a senzala. Lugar obscuro que guardava ainda muitos ares de sofrimento dos escravos. Questionei para mim mesmo que este lugar tinha que ser preservado. Era preciso mostrar para as gerações futuras as atrocidades cometidas pelos donos de escravos. O lugar estava ali. E as famílias que moram na região querem preservar também. É de uma importância sem igual que lugares como a Fazenda Santa Maria continue a contar historias.

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A fogueira acende e ficávamos contemplando a beleza daquele momento. Muitas pessoas viam ao nosso encontro para conversar. Estavam curiosos. Afinal de contas tinham professores na festa e isso para eles era de uma riqueza sem igual. Éramos valorizados. Demonstravam respeito, perguntavam coisas, e colocavam a nossa disposição toda a sabedoria de vida e daquele lugar. Conversa que fluía e apontava para diversas sínteses. Ouvia atentamente as historias de cinqüenta, sessenta, setenta anos atrás. Historias da Casa Grande, de ex-escravos que permaneceram na região, da vida, do Homem, do sistema. Uma coisa me chamou muita atenção: O orgulho das pessoas perante suas profissões. Os “caipiras” sempre se desculpavam para nós por não terem realizado uma faculdade. Porem, eles sentiam orgulho e se satisfaziam com o trabalho que eles tinham. Não havia ali nenhum tipo de arrependimento. Eles são os verdadeiros “doutores”  da vida.

Depois de muitas conversas, muita bebida e com a fogueira já em brasa, era hora de ir embora daquele mundo encantado. A “italianada” ainda dançava ao som de rock and roll dos anos cinqüenta na sala. Foi uma cena fantástica. Crianças e velhos dançando ao som de Rock Around The Clock de Bill Haley! Nunca mais esqueço essa cena. A “italianada” falando alto, com muitos gestos. Típico das famílias da zona norte. Vivi muito isso. Enquanto isso a “portuguesada” comiam, bebiam e conversavam sem parar. Ninguém queria deixar a gente ir embora. O tempo nesses lugares é orgânico.

Depois de muitos abraços, beijos e convites prontamente abertos para futuras visitas, nós fomos embora. Estava em paz. Foi uma noite fantástica. Uma redescoberta de mim mesmo. Eu amo a Zona Norte.

G.Stoner

Reorganização e fechamento de escolas estaduais e a resistência dos estudantes

Debate: UNIFESP/EFLCH – Campus Guarulhos

Autor: Guilherme Stoner, Professor Educação Básica II – E.E. “Profª Maria Aparecida Rodrigues”

A reorganização escolar foi anunciada no final de agosto pelo Secretário da Educação. No dia 23 de setembro o Secretário da Educação fala no jornal Bom Dia São Paulo sobre a reorganização escolar. A idéia defendida pelo Secretário é que alunos pudessem estudar em escolas de segmento único, ou seja, escolas para alunos do primeiro ao quinto ano, escolas do sexto ao nono ano, e escolas de ensino médio. Os alunos seriam deslocados para outras escolas num raio de 1,5 km.

IMG-20151130-WA0002O argumento para tais mudanças, por parte do governo, provém da idéia de que existe uma queda da população escolar no Estado de São Paulo. Seria necessária uma readequação diante da queda de natalidade e da redução de alunos matriculados na rede pública. Para se ter uma idéia, no ano de 2005, a taxa de natalidade (calculado por mil habitantes) era de 15,79. No ano de 2013 (último dado disponível), a taxa de natalidade era de 14,45. Entre o período estipulado, é possível ver quedas e elevação na taxa de natalidade.

De acordo com o SEADE (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados) este dado sobre a taxa de natalidade está de acordo com o argumento do governo. Porem as transformações no sistema de ensino não corresponde com a real intenção da Secretaria de Educação. O recurso da análise de dados a partir da queda da taxa de natalidade é apenas uma falácia para sustentar o argumento.

Porem no dia 16 de novembro o jornal o Estado de São Paulo divulga o estudo realizado pela Secretaria da Educação que sustenta o argumento para a reorganização. Este documento contém 19 páginas e usa apenas um critério para as mudanças, que é o alto índice de desempenho de escolas de ciclo único. Desempenho este que é avaliado por meio do IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo) que por sua vez é calculado pelo índice do (SARESP Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) e o fluxo escolar. Este documento não leva em consideração outros fatores como tamanho da escola, nIMG-20151130-WA0004úmero de alunos, gestão escolar, índices socioeconômicos, localidade, número de professores (efetivos e contratados).

Esse movimento tem como primeira conseqüência o fechamento de algumas escolas. Com isso teremos, também, a demissão de professores da categoria “O”, e outros funcionários do setor pedagógico da escola. A reorganização do sistema de ensino está sendo pensada a partir do ponto de vista econômico. O governo segue a cartilha do neoliberalismo, a intenção é enxugar os gastos na área da educação. Para um governo neoliberal educação é visto como gasto, e não como investimento.

No dia 28 de outubro o Governo do Estado de São Paulo anuncia o “reordenamento” de 94 escolas em todo o Estado. Reordenamento é uma palavra utilizada até então pelo governo para readequar as unidades escolares. Para o governo as unidades escolares serão readequadas para abrigar ETEC’s, centro de ensino para jovens e adultos, ou ainda, a transferência de escolas para a responsabilidade de municípios.

Outro ponto a ser questionado diz respeito às relações construídas entre aluno, escola e comunidade. Penso que é o fim deste modelo de cultura escolar. Um aluno que deverá se realocar em três momentos da sua vida escolar não criará uma identidade com a escola, pois não terá uma relação com ela. Portanto, o grêmio escolar perderá sua função. Com a reorganização escolar perderemos a oportunidade de criar uma escola verdadeiramente democrática. Hoje essa idéia não existe, é um fato. Porem com o atual modelo ainda temos a possibilidade de criar a democracia na escola. Com a modificação estrutural das escolas essa possibilidade acaba. A comunidade estará fora definitivamente das decisões da escola. O aluno e o professor serão coisas.

Porem há resistência. No final de setembro e início de outubro, pais, alunos e professores realizaram diversas manifestações no Estado de São Paulo contra a reorganização. Devo dizer que no dia 01 de outubro Guarulhos realizou uma das maiores manifestações até então contando com a presença de 700 pessoas. Esses primeiros atos tinham como objetivo pressionar os dirigentes em seus locais de trabalho, ou seja, nas Diretorias de Ensino.IMG-20151130-WA0003

Essas ações não surtiram o efeito necessário que era fazer com que o Estado desistisse da reorganização, mas chamaram a atenção imprensa e da sociedade em geral. Então vieram as ocupações das escolas por parte dos alunos. Essas ocupações foram organizadas pelos alunos e tiveram o apoio de movimentos sociais, grêmios e as organizações estudantis. Muitos pais e professores também apoiaram as ocupações.

As primeiras escolas a serem ocupadas foram a Escola Estadual de Diadema no dia 09 de novembro, e a Escola Estadual Fernão Dias no dia 10 de novembro. Os movimentos de ocupação ganharam força e temos, hoje, cerca de 220 escolas em todo o Estadode São Paulo. Os estudantes recorreram ao uso da internet para propagar as ações e chamar a opinião pública. Os alunos usaram fizeram uso de um manual de ocupação escrito por estudantes da Argentina e do Chile para organizar os atos nas escolas. Este manual, publicado no site O Mal-Educado, relata um pouco da história de estudantes secundaristas do Chile, em 2006 e depois 2011, durante a chamada “Revolta dos Pinguins”. Durante meses escolas de todo o país foram ocupadas na intenção de reivindicar uma educação gratuita e de qualidade.

Pensar na atitude dos alunos perante as ocupações vai além, do meu ponto de vista, da resposta desses alunos diante da reorganização escolar. O protagonismo dos alunos demonstra a necessidade de um verdadeiro reordenamento da escola. Gostaria de relatar um fato que me veio à memória durante o tempo que cursei o ensino médio entre 1994 e 1996. Lembremos que a primeira reorganização escolar ocorreu em 1995 durante o Governo Mário Covas. Eu me lembro que neste período as escolas sofreram algumas modificações físicas na estrutura das escolas como a colocação de grades nas dependências dos prédios. A ideia de que a escola se assemelha a uma prisão ficou cada vez mais evidente nas falas das pessoas.

Usando da fala do autor HERMAN HERTZBERGER no livro Lições de arquitetura de 1996, “Os edifícios escolares, como qualquer outro edifício, constituem-se como lócus à medida que seus ocupantes experimentam e interpretam esse espaço e dele apropriam-se, atribuindo-lhe significados e valores. Assim, a forma não apenas determina o uso e a experiência, mas também é igualmente determinada pelos dois na medida em que é interpretável e, portanto, pode ser influenciada”. Penso que a atitude dos alunos diante da proposta de reorganização vai além do chamado “reordenamento” das escolas. É, também, uma forma de protesto contra esse modelo de escola “prisional”, contra a repressão e a opressão que esses alunos sofrem diariamente nas escolas por meio de atos disciplinares que limitam as práticas pedagógicas, contra a ausência de um projeto de formação cultural (no caso o ensino médio), contra esse modelo de escola que pensa em formar apenas para um exército de reserva para o mercado de trabalho diante de um comportamento rotineiro e obediente do trabalho, e para a transformação de indivíduos que possam compreender julgar e intervir em sua comunidade de maneira responsável, justa, solidária e democrática. O recado está dado.Debate

Notas sobre a (des)organização escolar

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O governo do Estado de São Paulo e a Secretaria da Educação, numa série de ações como determinações e decretos, vem promovendo a reorganização do sistema de ensino. A reorganização escolar é uma ação que modificará toda  a estrutura de ensino. As mudanças atingirão a classe docente, os alunos, a comunidade, as práticas pedagógicas e a cultura escolar.

O argumento para tais mudanças, por parte do governo, provém da ideia de que existe uma queda da população escolar no Estado de São Paulo. Seria necessária uma readequação diante da queda de natalidade e da redução de alunos matriculados na rede pública.

De acordo com o SEADE (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados) este dado sobre a taxa de natalidade está de acordo com o argumento do governo. Porem as transformações no sistema de ensino não corresponde com a real intenção da Secretaria de Educação. O recurso da análise de dados a partir da queda da taxa de natalidade é apenas uma falácia para sustentar o argumento. A intenção é enxugar os investimentos na área da educação.

Outro argumento utilizado pela secretaria diz respeito às realocações de alunos e professores da rede. De acordo com a secretaria, as escolas deverão instituir a divisão por ciclos. Cada escola terá o ciclo de segmento único. Teremos, então, escolas do 1º ao 5º ano, escolas do 6º ao 9º ano e escolas de ensino médio, ou seja, criar espaços adequados para cada ciclo.

Esse movimento tem como primeira conseqüência o fechamento de algumas escolas. Com isso teremos, também, a demissão de professores da categoria “O”, e outros funcionários do setor pedagógico da escola. A reorganização do sistema de ensino está sendo pensada a partir do ponto de vista econômico. O governo segue a cartilha do neoliberalismo, cortando investimentos (para o Estado lê-se gasto) para a educação e demitindo funcionários.   A idéia de Adam Smith sobre proporcionar “educação mínima” para a classe trabalhadora é o elemento norteador para tais ações do governo estadual.

A educação é desprezada se levarmos em conta o ponto de vista pedagógico dessas ações. A preocupação é apenas tornar os alunos e professores “coisas” que reproduzem a ordem social. O modo imediatista, pragmático e utilitário de ensino não consegue explicar a realidade. Realidade esta que abarca a sociedade e a natureza, que por sua vez abrange o ser humano e a relação deste com a concepção de mundo. A ideia de liberdade não existe no que diz respeito à transformação da realidade, mesmo que seja o centro da concepção de mundo na contemporaneidade. O capitalismo, e suas formas de violências ao meio ambiente, difundem, por meio do neoliberalismo, a ideia que de não é possível tal transformação. Não há transparência nas visões de mundo no cotidiano, portanto a transformação da realidade não está visível no nível das aparências. Este ceticismo epistemológico se apresenta quando não podemos dizer quem é o Ser Humano e sua complexidade. Deste modo temos uma visão caótica e inexpressiva sobre o ser. O indivíduo é uma imensa incógnita. Se não soubermos quem é o Ser Humano, como criador e resultado da realidade, não saberemos como transformar a realidade.

Outro ponto a ser discutido diz respeito às relações construídas entre aluno, escola e comunidade. É o fim da cultura escolar. Um aluno que deverá se realocar em três momentos da sua vida escolar não criará uma identidade com a escola, pois não terá uma relação com a escola. Portanto, o grêmio escolar perderá sua função. Com a reorganização escolar perderemos a oportunidade de criar uma escola verdadeiramente democrática. Hoje essa ideia não existe, é um fato. Porem com o atual modelo ainda temos a possibilidade de criar a democracia na escola. Com a modificação estrutural das escolas essa possibilidade acaba. A comunidade estará fora definitivamente das decisões da escola. O aluno e o professor serão coisas.

Porem pais, alunos e professores resistem. Diversas manifestações em todo o Estado de São Paulo estão sendo realizadas para chamar a atenção da sociedade sobre a modificação do sistema de ensino. Na cidade de Guarulhos o ato contra a reorganização escolar foi realizado no dia 01 de outubro de 2015 na Diretoria de Ensino Guarulhos-Sul. Neste ato tivemos a presença de 700 pessoas incluindo pais, alunos e professores. Desta vez a aula de cidadania e democracia foi na rua…

Publicado no site Esquerda Diário em 05 de outubro de 2015

http://www.esquerdadiario.com.br/Notas-sobre-a-des-organizacao-escolar

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minha própria triste história

este é um modo terrível de viver:

cercado pelos

sempre-

irados,

desalmados e alucinados.

 

mas minhas experiências de juventude foram

muito parecidas.

 

eu deveria ter-me ajustado a isso

nessa altura.

 

desde meu raivoso e furioso

e mesquinho pai

até

 

o montão de mulheres

que veio depois

todas elas consumidas pela

depressão,

raiva inútil,

gritaria e

piedade de si

sem

sentido.

 

felicidade e simples alegria

pareciam a todas elas serem

apenas doenças a

erradicar.

 

minha própria

história:

 

este modo terrível

de viver.

 

mas sinto que agora agarrei

a vitória

sobre toda essa inútil

negra e furiosa

histeria.

 

sobrevivi a tudo

isso e

podem me dar porradas com suas

vidas raivosas e

me queimar em meu

leito de morte.

 

mas de algum modo

encontrei uma paz

perpétua

que nunca conseguirão

tirar

de mim.

 

Charles Bukowski

poema extraído do livro: “As pessoas parecem flores finalmente” – 2015.charlesbukowski

A atuação do professor supervisor do PIBID/subprojeto Ciências Sociais na UNIFESP

Escola pública e universidade no contexto da formação de professores: experiências dos subprojetos ciências sociais e pedagogia – III Encontro Local PIBID/UNIFESP

Autor: Guilherme Stoner Neves, Professor Educação Básica II – E.E. “Profª Maria Aparecida Rodrigues”

A atuacao professor PIBID

Pensar na atuação do professor supervisor do PIBID – subprojeto Ciências Sociais é pensar, do meu ponto de vista, em três momentos. Num primeiro momento como formação continuada, o segundo momento estaria ligado a ideia do professor-pesquisador, e no terceiro como “formador” de futuros professores de sociologia. A palavra “formador “, neste caso, refere-se a um profissional formado na área e que atua como auxiliar na formação de possíveis futuros professores da rede de ensino.

No que diz respeito à formação continuada, o PIBID possibilita ao professor parceiro a continuidade dos estudos sobre pedagogia e ciências sociais, e métodos de ensino referentes a disciplina, no caso, a sociologia. A sociologia como disciplina requer que o professor esteja atualizado com novas ou outras propostas de ensino. Essa construção contínua provém da necessidade, de uma disciplina relativamente “nova”, em conquistar espaços de discussão e, também, de construção de conhecimento. A formação continuada promove ao professor outras formas de conceber a educação levando em consideração a metodologia escolhida e as formas de ações entre professores, estudantes e alunos do PIBID. O coletivo torna-se elemento-chave na escolha entre o que estudar, como estudar e de que maneira podemos aplicar o estudo escolhido. O contato com a universidade pode ser uma forma de promover a continuidade dos estudos uma vez que “(…) se tornar professor, é um processo de longa duração, de novas aprendizagens e sem um fim determinado (NÓVOA, 1999).”

Outros desafios podem possibilitar ao professor que está em processo de formação continuada. Ao pensar a escola e toda sua dinâmica o professor tem a possibilidade de aprimorar sua competência técnica por meio do domínio do saber. O saber fazer faz-se cada vez mais presente a partir do momento em que há uma ligação mais estreita e contínua entre escola e universidade e entre teoria e prática. A formação continuada também possibilita outras reflexões no sentido político do saber ser.  Tais reflexões ajudam o professor a pensar sobre condições de trabalho, o papel da escola na sociedade, remuneração dos trabalhadores da educação, interesses de classes, divisão social do trabalho e tantas outras que permeiam o cotidiano escolar. Pensar nesses pressupostos é pensar o papel político do professor e sua atuação para transformação social, ou pelo menos parte dessa transformação.

O PIBID é um programa de suma importância no que diz respeito a atuação do chamado professor-pesquisador. Este momento está ligado intrinsecamente a formação continuada e seria, talvez, o resultado das ações produzidas na universidade. O papel do professor-pesquisador é fazer com que o profissional possa observar e analisar a realidade escolar, com intuito de aplicar outras formas de conceber a educação por meio da disciplina no qual ele é habilitado.  Seria uma maneira de fazer com que o professor não seja apenas um técnico dentro de sala de aula no qual seria apenas uma espécie de “gerenciador de apostilas e livros didáticos”, ou seja,  gerentes que verificam apenas a produção de atividades de forma mecânica. De acordo com M. K. de Pesce:

“(…) a preocupação em formar o professor com conhecimento em fazer pesquisa é essencial para que ele possa deixar de ser um técnico, reprodutor das práticas convencionais que são internalizadas pela força da tradição e passe a ser produtor de conhecimento e autor de sua ação educativa (PESCE apud LIBÂNEO, 2002)”.

A forma de atuação como professor-pesquisador favorece pensar, discutir, analisar e aplicar conhecimentos sociológicos que provem de demandas sociais mais próximos da realidade da escola, porem sem descuidar do rigor acadêmico da pesquisa. A pesquisa possibilita adequar, de forma rigorosa, a proposta curricular para o ensino de sociologia no ensino médio com temas que possam estar mais próximo do cotidiano dos alunos da escola. Desta maneira o professor-pesquisador é o profissional que propõe a troca de informações entre membros do PIBID e a produção de outros conhecimentos, de forma didática, no ambiente escolar.

As contribuições do PIBID para com alunos da licenciatura em ciências sociais provêm do esforço entre professor coordenador e supervisor em socializar os conhecimentos adquiridos ao longo dos anos na docência. O professor supervisor torna-se referência num processo em que as relações interpessoais entre estudantes e professor são construídas em sala de aula. O estudante do PIBID tem a possibilidade de estar em contato com a comunidade escolar e construir junto com os professores (supervisor e coordenador) formas de atuação docente. Formas estas que poderão servi-lhes de referência em suas práticas docentes. Penso ainda que o papel do professor supervisor seja o de multiplicador de informações, conhecimentos, experiências e saberes pedagógicos produzidos diante da prática docente. O professor supervisor é uma das possibilidades que contribui de forma ativa com a função da universidade em atrelar ensino, pesquisa e extensão.

 Bibliografia:

 LIBÂNEO, J. C. Adeus professor, adeus professora? Novas exigências educacionais e profissão docente. São Paulo: Editora Cortez, 1988.

LIBÂNEO, J. C. Saber, saber ser, saber fazer: o conteúdo do fazer pedagógico. In: Democratização da escola pública – A pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Loyola, 1985.

NÓVOA, A. (Org). Os professores e a sua formação. Portugal: Porto, 1992.

PESCE, M. K. de. Professor pesquisador na visão do acadêmico de licenciatura. Disponível em: <http://www.ucs.br/etc/conferencias/index.php/anpedsul/9anpedsul/paper/viewFile/754/441&gt;. Acesso em 20 de abr. de 2015.

PIMENTA, S. G. Formação de professores: saberes da docência e identidade do professor. In: Ivani Fazenda (Org.) Didática e interdisciplinaridade. Campinas: Papirus, 1998.

WENGZYNSKI, C. D.; TOZETTO, S. A formação continuada face as suas contribuições para a docência. Disponível em: <http://www.ucs.br/etc/conferencias/index.php/anpedsul/9anpedsul/paper/viewFile/2107/513&gt;. Acesso em 20 de abr. de 2015.

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Percalços e encalços de greve

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A idéia deste texto é levantar questões. Evitar precedentes especulativos que possam distorcer as ações dos trabalhadores, seus representantes e entidades como centrais sindicais. É uma tentativa de chegar a uma possível totalidade dos atos que vem ocorrendo desde o dia 13 de março, que inclui ações da APEOESP e a CUT, especificamente. Os demais movimentos sociais presentes no dia 13 de março não serão contemplados nesta reflexão, pois acho desnecessário e sairia do foco de analisar a greve dos professores do Estado de São Paulo. Para alguns esta reflexão poderá se tornar outra forma de ver como a greve está sendo construída, para outros será uma análise rasa e inocente que não indica a real intenção do sindicato e da central sindical.

O que motivou a escrever este texto foi a negociação realizada no dia de hoje (23/04/2015) entre o sindicato e a Secretaria de Educação. O encontro não resultou em nenhuma solução e muito menos em uma contraproposta por parte do governo. Foi apenas para uma tomada de negociação para que os representantes de ambos os lados pudessem beber o chá das cinco. O mais estranho é que nem as reivindicações para o fim da duzentena para a categoria “O” foram decididas. O que realmente está acontecendo? Por que essa insistência de levar a greve por mais de 40 dias sem nenhuma proposta apresentada pelo governo? Sabemos que uma greve de professores não pode ser comparada com uma greve na indústria, por exemplo. Professor não produz riqueza material, não interrompe a produção de produtos diminuindo a margem de lucro do capitalista. Uma greve de professores leva muitos dias para começar as negociações. O governo tenta a todo custo vencer por meio do esgotamento mental e financeiro dos professores. É uma luta desonesta. A sociedade, por meio da mídia, não apóia e não tem interesse em uma greve de professores. A desconstrução  da greve é diária por meio do ato de ignorar, pelos meios de comunicação, os fatos que são apresentados nas pautas dos jornais.

Diversas manobras vêm ocorrendo desde que a direita no nosso país tomou posição sobre diversos assuntos discutidos em nossa sociedade.  A questão dos direitos trabalhistas é apenas um desses assuntos que repercutem em diversos setores da sociedade civil. A última investida daqueles que defendem uma agenda neoliberal de mercado foi o projeto de lei nº 4330, ou a PL que “regulamenta” a terceirização dos empregos. Eu concordo com a idéia de Ricardo Antunes de que terceirização não se regulamenta, se combate para que não seja aprovada e ponto. O ato do dia 13 contemplou não apenas a defesa da Petrobrás, mas outras reivindicações como a luta por diretos, da reforma política e também contra a PL nº 4330. A APEOESP, filiada à CUT, pegou carona nesse ato e promoveu a assembléia dos professores no vão livre do MASP. Desde então a greve dos professores ocorre de forma significativa em todo o Estado. A adesão é alta como pode se comprovar pelas fotos e vídeos produzidos, e vinculados através das redes sociais, por aqueles que se dispõe a registrar as manifestações.

IMG_8904A APEOESP é um dos maiores sindicatos da América Latina e conta com 180 mil sócios. É filiada a CUT e a CNTE. É neste ponto que começo a levantar algumas questões. Penso que a greve dos professores é apenas uma das diversas ações que a CUT vem promovendo contra o avanço de mudanças políticas, econômicas e sociais que o governo vem sofrendo nos últimos meses. Os professores do Estado seriam a ponta-de-lança para ações maiores como a proposta da greve nacional dos trabalhadores da educação básica pública do dia 30 de abril promovido pela CNTE. Mani(FESTA)ções no dia 01 de maio, data simbólica de luta dos trabalhadores. A própria CUT ameaça promover mobilizações em prol de uma greve geral contra  a Lei da Terceirização. Os professores possuem uma função fundamental em conduzir as mobilizações, mesmo porque nos finais das assembleias da APEOESP sempre ouvimos dos carros de som chamadas e apoios de outras categorias como a dos metroviários, profissionais da saúde e outras categorias que estudam formas de iniciar suas próprias greves. A experiência das mobilizações no Estado do Paraná teve repercussão em todo o país, e existe uma tentativa de reproduzir o que foi feito no Paraná no nosso Estado.

Sou a favor de todas essas mobilizações e penso que os professores não podem arregar diante do descaso que o Governo do Estado de São Paulo vem atuando contra a categoria. As reivindicações dos professores são justas e combatem a maneira como o governo age perante as políticas educacionais. É preciso fazer com que a escola deixe de ser uma empresa que visa apenas a produtividade de forma mecânica visando índices valorativos. Porem penso que é necessário analisar a greve do ponto de vista da permanência e manutenção dos professores em luta. É necessário fazer uso do fundo de greve para que consigamos atingir nossos objetivos. É necessário radicalizar o movimento promovendo outras ações de impacto. Intensificar os trabalhos de base. Não perder o foco nas reivindicações, porem não esquecer que talvez possamos ser apenas parte de um todo que vem sendo construído há tempos.

G.Stoner

Sobre saudade e ressentimento

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Saudade e ressentimento. Dois sentimentos passados que vivem no presente e, de certa maneira, almejam o futuro.  A saudade traz a lembrança boa no qual se deseja reviver. O ressentimento perturba com aqueles fatos que trouxeram decepção. Saudade é a vida querendo renascer. Ressentimento é a dor, a culpa, a falta de perdão. A saudade olha para o futuro num movimento benevolente. O ressentimento olha para o passado e lá permanece de forma doentia.

Existem pessoas que tenho saudade, porem a possibilidade de não vê-las é grande. Não porque não quero, mas, talvez, pelos caminhos diversos que seguimos ao longo da vida. Poucos são aqueles que estarão lado a lado. Uns irão embora, outros permanecem por mais um tempo, e outros ainda chegarão para causar saudade um dia.

Existem pessoas que tenho ressentimento, e de vez em quando elas insistem em aparecer para lembrar que existem. Causaram uma destruição tão grande em minha vida que apenas olhá-las abala os sentimentos. Por mais que eu queira fugir delas elas aparecem nas situações mais inusitadas. Situações essas que eu jamais imaginaria que fosse acontecer.

Lógico que esses sentimentos não se resumem para pessoas. Lugares, coisas e situações podem servir de combustível para senti-las.

Passei a maior parte da minha vida num determinado lugar. Cresci, vivi e morri ali. Foram diversas experiências positivas e que guardo no meu coração. Mas hoje a saudade virou ressentimento. Quando penso nesse lugar meu coração aperta e começo a chorar. A morte passou por mim diversas vezes como se me provocasse, mas ainda não me levou. Não existe mais nada para mim lá. Apenas dor, desprezo e morte.

Em outros lugares permaneci por pouco tempo, porem tenho a maior vontade de reviver o que passei. Foram momentos lindos em que a vida transbordava  pelas beiras numa intensidade que jamais tinha vivenciado. Quando penso nesse lugar meu coração aperta e começo a chorar. A vida se alojou em mim diversas vezes como se me contemplasse, e ela me levou. Parte de minh’alma ficou por lá.

Saudade e ressentimento me ensinam hoje. O presente direciona minhas ações para que no futuro tenha esses sentimentos. Sempre terei saudade das coisas que me fizeram bem, assim como sempre terei ressentimento de algo negativo. Eu também serei alvo de saudade ou de ressentimento para alguém. Causarei alegria ou decepção, tudo depende de como vou atuar. A vida é uma roda. A roda é viva.